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geopolítica

Venezuela: o estado da arte

1.A captura de Nicolás Maduro pelas forças especiais dos Estados Unidos marcou uma rutura sem precedentes na política internacional contemporânea. Donald Trump assumiu publicamente que Washington está preparado para governar a Venezuela durante um período de transição e, se necessário, não excluiu uma segunda vaga de ataques, alargando mesmo os avisos a outros países da região, com particular destaque para Cuba. Para a administração norte-americana, está em causa um “direito de intervenção” justificado pela segurança nacional e pelo combate ao narcotráfico.

2.Segundo a acusação formal apresentada por um tribunal federal dos EUA, Maduro terá liderado um cartel que utilizava a cocaína “como arma contra os Estados Unidos”, ligando o regime venezuelano a redes internacionais de tráfico de droga e terrorismo. O presidente deposto foi detido e conduzido primeiro para um navio norte americano e depois para um avião que o transportou para Nova Iorque, onde será julgado, num processo que envolve também familiares, ministros e estruturas criminosas associadas ao poder.

3.A operação, conduzida pela Delta Force, desafia diretamente Moscovo e Pequim. A Rússia e a China condenaram o ataque e alertaram para o precedente criado, num contexto em que o fator crucial é o petróleo: a Venezuela detém as maiores reservas comprovadas do mundo, e Trump já deixou claro que a exploração do “ouro negro” faz parte dos planos norte-americanos. Para vários analistas, esta intervenção pode ter efeitos colaterais globais, desde a legitimidade de futuras ações unilaterais até à questão sensível de Taiwan.

4.A União Europeia, sem condenar explicitamente o ataque, apelou à contenção e a uma transição pacífica, mas o mundo divide-se. Brasil, China, Rússia e Irão, este último através de uma carta enviada ao secretário-geral da ONU, acusam Washington de violar o direito internacional. Espanha já anunciou que não reconhecerá a intervenção norte-americana.

5.No terreno, a incerteza domina. Grupos paramilitares fiéis a Maduro dizem estar “armados até aos dentes” e prontos para a guerra, enquanto o ministro da Defesa venezuelano anunciou a mobilização de meios militares. “O Governo ainda não caiu, o que caiu foi Maduro”, resumem alguns observadores, sublinhando que nem o próprio Trump parece ter uma estratégia clara para gerir o país.

6.Em Portugal, a crise mereceu uma reunião entre o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro, estando o tema agendado para debate no Conselho de Estado. A Embaixada portuguesa em Caracas aconselhou os cidadãos nacionais a permanecerem em casa. Entre a comunidade luso-venezuelana, o sentimento é descrito como uma “sensação estranha e confusa”.

7.A captura de um chefe de Estado em exercício por forças estrangeiras lança a Venezuela e o mundo numa nova era de incerteza, onde as regras tradicionais da soberania parecem cada vez mais frágeis. Perante este quadro, os cenários de futuro para a Venezuela  e para a ordem internacional são profundamente instáveis e dependem de decisões políticas que ainda não estão consolidadas. A Venezuela entra num período em que o futuro já não depende apenas dos venezuelanos. O país tornou-se um palco onde se cruzam segurança, energia e poder global. O maior risco não é apenas o colapso interno, mas a consolidação de um mundo onde a força substitui o direito e onde qualquer Estado pode, um dia, ser o próximo.

Manuel Ferreira dos Santos

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