Tal como foi amplamente divulgado, recentemente, no Porto, mais concretamente no Bairro do Lagarteiro, ocorreu um tiroteio ao “estilo marselhês”, na sequência do qual diversas viaturas foram atingidas pelos projéteis. A luta pelo domínio de um espaço de influência, o sentimento de impunidade misturado com o acesso fácil a armas e o dedo leve no gatilho tem como resultado final estes episódios. Nem parece que estamos num dos dez países mais seguros do mundo, dado que este tipo de ocorrências nos transporta para espaços dominados pelos crime organizado, nomeadamente as favelas do Rio de Janeiro ou algumas cidades mexicanas.
Rumando a sul, nos subúrbios de Lisboa, um polícia foi atropelado pelo condutor de uma viatura furtada em França. O crime não conhece fronteiras, estando em permanente mutação, e como tal os seus tentáculos não têm limites territoriais de atuação. Lamentamos que ainda haja quem pense que tudo parou, se tenha cristalizado, nos anos 80/90 do século passado. Pelo que tem de haver uma adaptação constante por parte das autoridades/tutela ao novo paradigma criminal, sob pena de não se conseguir satisfazer as necessidades de segurança da comunidade.
Na capital, três agentes da PSP foram agredidos com um pau e à dentada por um cidadão que estava a ser agressivo para outras pessoas. Mais um caso que vem ilustrar o sentimento de impunidade que se instalou em relação às agressões aos representantes do Estado e por outro lado o risco permanente em que vivem os elementos das Forças de Segurança sem que sejam devidamente compensados por isso.
Entretanto, o Ministério da Administração Interna decidiu declarar “tolerância zero” à discriminação e racismo nas Forças de Segurança, criar um grupo de trabalho para combater os problemas de saúde mental neste setor, e a senhora inspetora-geral da Administração Interna terá afirmado que os elementos de Forças de Segurança não devem usar redes sociais para “despejar aquilo que lhes vai na alma”.
E o “resto”? Os problemas de fundo? Nomeadamente a falta de atratividade com reflexos no captação de recursos humanos, a escassez de meios materiais, as agressões permanentes, o desrespeito, as instalações degradadas e o famigerado “suplemento da discórdia”. Talvez sejam questões de somenos importância, os episódios atrás referidos e milhares de outros mais ou menos análogos não passem de mera ficção e nós tenhamos uma visão distorcida da realidade [1].
Por fim, não poderíamos deixar de dar nota da publicação de um livro intitulado Insubmisso – Memórias de um Polícia, da autoria de Eduardo Dâmaso e Teófilo Santiago. Uma narrativa empolgante de três grandes operações policiais: Apito Dourado, Face Oculta, Aveiro-Connection.
L.M.Cabeço
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[1] – Entretanto, foi publicado um Relatório da Inspeção Geral da Administração Interna, onde se dá nota de algumas das preocupações atrás elencadas que teve bastante eco no imprensa.
- Ministério da Administração Interna garante que está a par dos problemas nas forças de segurança. In JE
- Relatório IGAI. PSP e GNR com falta de viaturas e recursos humanos. In RTP
- Sindicatos da PSP e GNR: relatório da IGAI confirma alertas e pedem acção ao Governo. In Público

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