Nos últimos anos, Portugal tem assistido a um agravamento dos homicídios de elevada violência associados a ajustes de contas relacionados com o tráfico de estupefacientes.[1] Neste tipo de
criminalidade, um verdadeiro polvo cujos tentáculos se têm vindo a estender por todo o país, a violência não é apenas um fim em si mesma, mas também uma linguagem: serve para impor o medo e marcar território.
Não se pode perder de vista que a circulação de grandes quantidades de estupefacientes e de dinheiro, aumenta de forma exponencial o risco de “ajustes de contas” motivados por desvios, traições ou dívidas.
O perigo maior reside no facto de esta violência ocorrer, cada vez mais, em espaços públicos, aumentando significativamente o risco de vítimas colaterais (v.g. transeuntes inocentes), algo que até há pouco tempo era excecional no contexto português [2].
A expansão do tráfico de estupefacientes e da violência que lhe está associada representa uma ameaça direta à segurança e à liberdade. Ignorar esta realidade ou adiá-la em relatórios e discursos é abrir caminho à normalização do medo, um preço que a sociedade não pode aceitar. Impõe-se uma análise das causas, a clarificação de responsabilidades e a definição de soluções.
Sousa dos Santos
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[1] Isto numa altura em que ficámos a saber que o número de homicídios em 2025 foi o mais alto dos últimos sete anos e que se assiste a um aumento do sentimento de impunidade relativamente à utilização de armas. Há uma estimativa que aponta para a existência de mais de um milhão de armas ilegais em Portugal, segundo José Manuel Anes estamos perante uma “liberalidade no controlo de armamento”.
[2] Em Marselha, durante o ano de 2023, 49 pessoas perderam a vida, durante tiroteios entre grupos rivais de traficantes de droga. Num dos casos, um jovem de 14 anos foi alvejado cinco vezes com uma Kalashnikov.

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