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geopolítica, Relações Internacionais

Venezuela – estado da arte II

Venezuela e Gronelândia: sinais convergentes de uma nova ordem global

1.Decorrida que está uma semana sobre a “extração” de Nicolás Maduro por uma força especial dos Estados Unidos, o impacto político e simbólico da operação continua a fazer-se sentir muito para lá das fronteiras venezuelanas. Este episódio marcou uma rutura clara com práticas recentes da diplomacia internacional e abriu um debate profundo sobre soberania, legalidade e o regresso da força como instrumento central na gestão das crises globais.

2.A sucessão de acontecimentos em torno da Venezuela e da Gronelândia revela uma transformação profunda da ordem internacional, marcada pelo regresso explícito da lógica da força, da competição por recursos estratégicos e da erosão do multilateralismo. Não obstante serem geograficamente distantes, estes dois cenários integram o mesmo tabuleiro geopolítico, onde soberania, democracia e direito internacional surgem cada vez mais subordinados a interesses energéticos e de segurança.

3.Na América Latina, a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos abriu uma nova fase da crise venezuelana, sem garantir, contudo, uma transição democrática clara. O afastamento do líder chavista não significou o fim do regime, que sobrevive através de redes políticas, militares e familiares, agora sob tutela externa. 

4.A repressão interna, a libertação seletiva de presos políticos e a centralidade do petróleo confirmam que a Venezuela se tornou um laboratório de uma mudança de regime condicionada, em que a estabilidade e os interesses estratégicos prevalecem sobre as liberdades civis. O envolvimento indireto de potências como Rússia, China e Cuba amplia o alcance da crise e transforma Caracas num ponto sensível da rivalidade global.

5.Ao mesmo tempo, a Gronelândia emerge como símbolo da nova disputa pelo Ártico. O degelo acelerado expõe recursos naturais e rotas marítimas cruciais, atraindo o interesse direto, já manifestado noutras ocasiões, de Washington. As declarações de Donald Trump sobre a possibilidade de “adquirir” o território, aliadas à pressão estratégica sobre a NATO, colocam a Europa perante as suas fragilidades e divisões. As propostas de reforço militar na região contrastam com a ausência de uma posição europeia coesa, enquanto se reacende o debate sobre autodeterminação, segurança e neocolonialismo.

6.A Venezuela e a Gronelândia ilustram um mundo em transição acelerada, onde a política internacional é cada vez mais transacional, assente na força e na exploração de recursos. A normalização da ação unilateral, o enfraquecimento das regras comuns e a redefinição das esferas de influência apontam para uma ordem global mais instável. 

7.Perante este cenário, o futuro dependerá da capacidade das potências, e em particular da Europa, de responder a esta nova realidade não apenas com discursos, mas com estratégia, coerência e defesa efetiva do direito internacional.

Manuel Ferreira dos Santos

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