Entre Caracas e Teerão: o mundo à beira de novos alinhamentos
1.A última semana de janeiro confirmou uma tendência que vinha a ganhar forma desde o início do ano: a política internacional entrou numa fase de reconfiguração acelerada, marcada pela imprevisibilidade de Washington, pelo enfraquecimento de regimes sob pressão interna e por um crescente risco de escalada militar no Médio Oriente.
2.Na Venezuela, um mês após a captura de Nicolás Maduro, o chavismo resiste, mas já não controla totalmente o guião. O Governo interino procura ganhar tempo e legitimidade externa, anunciando investimentos de 1,18 mil milhões de dólares na indústria petrolífera em 2026 e abrindo o sector ao investimento privado, um sinal claro dirigido aos Estados Unidos.
3.Washington responde com pragmatismo: prepara a reabertura da embaixada em Caracas, anuncia o regresso dos voos comerciais e admite uma negociação que junte chavismo e oposição para uma transição democrática. Delcy Rodríguez propõe uma lei de amnistia para presos políticos, enquanto Corina Machado insiste numa “transição real”, agradecendo a pressão norte-americana. O petróleo, mais uma vez, surge como chave política: riqueza estratégica, fragilidade económica.
4.Cuba afina pelo mesmo diapasão. Sob novas tarifas ligadas ao petróleo, Havana acusa os EUA de conspiração, enquanto admite discretos contatos diplomáticos. Washington, por seu lado, já não esconde o objetivo de acelerar o fim do regime ainda este ano, num contexto em que México e China surgem como atores laterais de contenção.
5.Mas é no eixo EUA-Irão que a temperatura geopolítica atinge níveis mais perigosos. Um mês de protestos no Irão, com números de mortos que variam entre os 3.000 reconhecidos pelo regime e dezenas de milhares denunciados pela ONU, fragilizou Teerão internamente. Externamente, a escalada é evidente: drones abatidos, navios abordados no estreito de Ormuz, ameaças mútuas e a UE a designar a Guarda Revolucionária como organização terrorista.
6.Donald Trump fala numa “enorme armada” e avisa que o próximo ataque será pior; Teerão responde que Telavive não ficará imune e declara exércitos europeus como “grupos terroristas”. Ainda assim, ambos admitem negociações iminentes, sinal de que a retórica belicista convive com o medo real de uma guerra regional.
7.Como pano de fundo, António Guterres alerta para um mundo dividido em esferas rivais entre EUA e China, enquanto Bruxelas tenta redefinir a sua relação com Washington, agora confrontada com ideias tão simbólicas quanto improváveis como a “Cúpula Dourada” de defesa na Gronelândia.
8.Entre diplomacia e intimidação, o início de 2026 mostra um sistema internacional em desequilíbrio: regimes pressionados por dentro, grandes potências a testar limites e um fio cada vez mais fino entre negociação e confronto aberto.
Sousa dos Santos

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