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Saúde, Segurança

Da urgência à insegurança

1.Diversos episódios ocorridos nas últimas semanas voltaram a evidenciar a fragilidade do sistema de saúde em Portugal, num cenário que profissionais e especialistas já classificam como estrutural. Atrasos no socorro, mortes em contexto de emergência, ambulâncias imobilizadas, falta de macas e urgências sobrelotadas revelam um Serviço Nacional de Saúde (SNS) a funcionar no limite, com impactos diretos na segurança e na dignidade dos utentes.

2.Isto porque o conceito de segurança em sentido amplo abrange a capacidade do Estado e da sociedade para garantirem condições estáveis de proteção da vida, da dignidade e do bem-estar dos cidadãos, ultrapassando as fronteiras tradicionais da segurança interna e da Defesa Nacional. Este conceito integra múltiplas dimensões, nomeadamente a segurança da saúde, o acesso efetivo a serviços públicos fundamentais, a proteção social, a confiança nas instituições e a eficácia da resposta pública em situações de risco.

3.Quando estes pilares começam a falhar ou colapsam, instala-se um sentimento de insegurança que fragiliza a coesão social, mina a confiança no Estado e afeta diretamente a estabilidade democrática, abrindo-se o caminho para  o florescimento dos extremismos e dos radicalismos.

4.No emergência pré-hospitalar, a escassez de meios e a fraca articulação entre o INEM, os bombeiros e os hospitais têm sido particularmente visíveis, sobretudo na Margem Sul. Casos como o de uma idosa que aguardou cerca de 40 minutos por uma ambulância acionada a dezenas de quilómetros, ou os inquéritos abertos pelo Ministério Público após mortes associadas a atrasos no socorro, expõem falhas graves de planeamento e gestão. Apesar dos anúncios de reforços temporários e de novas viaturas, persistem denúncias de ambulâncias paradas por falta de pessoal e manutenção, enquanto os bombeiros continuam a suprir lacunas do sistema.

5.Nos hospitais, a pressão mantém-se elevada. A retenção prolongada de macas nas urgências bloqueia ambulâncias durante horas e agrava o efeito em cadeia na resposta de emergência. Episódios como o de uma doente oncológica em Coimbra que terá ficado deitada no chão, ou tempos de espera superiores a dez horas em grandes hospitais da Grande Lisboa, alimentaram a indignação pública e levantaram questões sobre transparência e responsabilidade institucional.

6.A este quadro soma-se um diagnóstico mais amplo e preocupante: em 2025, os portugueses estão mais doentes e enfrentam maiores dificuldades no acesso a cuidados e medicamentos. O envelhecimento da população, a escassez de profissionais, os custos crescentes e respostas públicas frequentemente reativas criam um sistema em permanente gestão de crise, com consequências sociais e económicas profundas.

7.Ao mesmo tempo, no domínio da saúde pública, emergem novos riscos. A identificação dos primeiros casos de Candida auris em Portugal, um fungo hospitalar altamente resistente, sublinha a necessidade de reforçar a vigilância epidemiológica e o controlo de infeções. A resposta científica existe, como demonstra o trabalho desenvolvido pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP), mas sem decisões políticas firmes, investimento sustentado e capacidade operacional, o conhecimento corre o risco de não se traduzir em proteção efetiva.

8.Garantir uma resposta eficaz na saúde é hoje também uma questão de segurança. Sem reformas estruturais e decisões firmes, o SNS continuará a minar a confiança dos cidadãos e a aprofundar um sentimento de insegurança que vai muito além da saúde.

O diagnóstico está feito. Falta saber se haverá visão estratégica e vontade política para agir antes que o custo da inação se torne irreversível.

L.M.Cabeço

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