1.A semana de 12 a 18 de Janeiro de 2026 [1] confirmou uma tendência que se vinha desenhando desde o início do ano: um mundo mais instável, instituições sob pressão e uma crescente sensação de vulnerabilidade, tanto no plano internacional como no quotidiano português.
2.Em Portugal, os sinais de desgaste dos serviços públicos tornaram-se difíceis de ignorar. As Forças de Segurança deram voz a um mal-estar antigo. A PSP falou de efetivos envelhecidos e desmotivados; militares da GNR reclamaram melhores salários; e sucessivas denúncias de abusos, tortura e violência em esquadras colocaram em causa a confiança nas instituições e reacenderam o debate sobre recrutamento, formação e fiscalização interna. A criminalidade violenta marcou presença, com roubos, sequestros, homicídios e tráfico de droga a marcarem a semana, muitas vezes com vítimas especialmente vulneráveis.
3.A saúde pública foi outro foco de preocupação. A confirmação da presença do fungo Candida auris em hospitais portugueses, embora conhecida desde 2022, voltou a expor fragilidades do sistema, a par de falhas persistentes na resposta de emergência. O INEM registou números recorde de chamadas, enquanto bombeiros denunciaram descoordenação e falta de meios. Nos hospitais, repetiram-se relatos de tempos de espera excessivos e de condições indignas, sintomas de um Serviço Nacional de Saúde sob tensão contínua.
4.No plano internacional, o Irão dominou grande parte da agenda. A repressão violenta dos protestos, as milhares de detenções e as ameaças de escalada militar agravaram a instabilidade no Médio Oriente. A União Europeia reforçou a pressão diplomática, enquanto os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump no seu segundo mandato, oscilaram entre retórica de confronto e sinais ambíguos de negociação. O encerramento de representações diplomáticas, incluindo a portuguesa, ilustrou a gravidade da situação.
5.A guerra na Ucrânia continuou a ensombrar a semana. Ataques russos a infraestruturas energéticas deixaram o país com sérias limitações de eletricidade, num conflito que 2025 já consagrou como o mais letal para civis desde 2022. A NATO reafirmou apoio a Kiev, mas persistem dúvidas sobre a rapidez e a eficácia da ajuda ocidental.
6.A Gronelândia emergiu como símbolo de uma nova disputa estratégica global. As declarações de Donald Trump sobre o controlo do território provocaram reações firmes da Dinamarca, de aliados europeus e da NATO, revelando tensões latentes sobre soberania, defesa e dependência estratégica dos Estados Unidos. O debate sobre autonomia europeia ganhou novo fôlego, num contexto de crescente militarização.
7.Catástrofes naturais, acidentes graves e crises humanitárias completaram o retrato: incêndios devastadores no Chile, a declaração de catástrofe nacional na África do Sul e tragédias em várias regiões do mundo reforçaram a perceção de um planeta sob pressão ambiental e social.
8.No conjunto, a semana deixou uma impressão clara: a normalidade tornou-se frágil. Entre um mundo em convulsão e um país confrontado com limitações estruturais, cresce a exigência de respostas políticas, institucionais e cívicas à altura de um tempo marcado pela instabilidade, pela incerteza e por desafios que já não permitem adiamentos.
Sousa dos Santos
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