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Defesa, geopolítica, Relações Internacionais

Venezuela – estado da arte III

Da Venezuela ao Ártico: sinais de um mundo em reposicionamento

1.A semana confirmou que a instabilidade internacional deixou de se concentrar nos conflitos tradicionais e passou a emergir também em dossiês considerados, até há pouco, periféricos. Da Venezuela à Gronelândia, passando pelo Irão, acumulam-se sinais de um sistema internacional mais fragmentado, onde negociações discretas, confrontos verbais e recuos táticos convivem num equilíbrio cada vez mais precário.

2.A Venezuela voltou ao centro do tabuleiro geopolítico. Revelações sobre contatos secretos entre Washington e figuras-chave do regime, meses antes da captura de Nicolás Maduro, alimentaram especulações sobre canais paralelos de negociação e sobre os limites da estratégia norte-americana. No plano interno, a oposição tenta manter viva a expectativa de mudança, mas o impasse institucional persiste, num país onde a transição política continua bloqueada apesar de gestos pontuais de abertura, como a libertação de presos e sinais de diálogo externo.

3.Ao mesmo tempo, a Administração norte-americana enfrenta constrangimentos noutras frentes. Donald Trump ensaiou raros gestos de recuo político, como o pedido de desculpas por uma deportação indevida, enquanto setores do Partido Republicano começam a distanciar-se da sua retórica externa mais agressiva. Ainda assim, a lógica de pressão mantém-se dominante, seja através de ameaças económicas, seja pelo uso de linguagem confrontacional.

4.É neste contexto que a Gronelândia emergiu como novo foco de tensão estratégica. O interesse declarado dos Estados Unidos no território ártico provocou protestos na Dinamarca e reações firmes de Copenhaga, ao mesmo tempo que a União Europeia começou a traduzir a retórica de defesa da soberania em passos concretos no plano militar. A ilha tornou-se símbolo de uma disputa mais ampla sobre segurança, autonomia europeia e o futuro da relação transatlântica.

5.No Médio Oriente, o confronto verbal entre Washington e Teerão voltou a intensificar-se. Trump defendeu a necessidade de “um novo Governo” no Irão, ao passo que o regime dos aiatolas acusou os Estados Unidos de responsabilidade direta pela repressão dos protestos internos. Apesar da escalada retórica, a pressão de alguns líderes regionais levou a um recuo tático norte-americano quanto a uma intervenção militar direta, num cenário marcado por ameaças de cortes de internet e tentativas externas de contornar o controlo da informação.

6.Daqui extrai-se um padrão comum: a erosão das regras previsíveis da ordem internacional. Entre negociações de bastidores, ambições territoriais, sanções económicas e recuos estratégicos, cresce a percepção de que a instabilidade deixou de ser exceção para se tornar estrutural. Num mundo em reposicionamento acelerado, a gestão do risco passou a ser, ela própria, um dos principais instrumentos da política global.

Manuel Ferreira dos Santos

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