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geopolítica, Relações Internacionais, Segurança

Venezuela IV

Venezuela e a geopolítica do caos

1.Entre 19 e 26 de janeiro, a Venezuela voltou a ocupar um lugar central num tabuleiro internacional cada vez mais instável. A captura de Nicolás Maduro, ainda envolta em versões contraditórias, abriu uma fase paradoxal: por um lado, sinais de distensão, com a libertação de centenas de presos políticos e a retórica de diálogo da presidente interina; por outro, a reafirmação autoritária de figuras como Delcy Rodríguez, prometendo repressão contra quem “celebre” a queda do antigo regime e denunciando ingerências de Washington.

2.O petróleo permanece o eixo estruturante. Caracas anunciou aumentos significativos de produção e novos acordos de centenas de milhões de dólares, abrindo espaço ao capital privado enquanto Moscovo garante que manterá relações com as novas autoridades. A Venezuela tenta, assim, reposicionar-se como potência energética num mundo faminto por recursos, mas fá-lo num contexto de fragilidade institucional, dependência externa e tensões internas ainda longe de serem resolvidas. Para países como Portugal, a libertação de cidadãos luso-venezuelanos sublinhou tanto a importância da pressão diplomática como os seus limites.

3.Este quadro latino-americano cruza-se com uma transformação mais ampla da ordem internacional, acelerada por Donald Trump. Um ano depois do regresso à Casa Branca, a marca dominante é a imprevisibilidade elevada a método. A obsessão com a Gronelândia, justificada ora pela “segurança absoluta”, ora por ressentimentos pessoais como o Nobel da Paz nunca recebido, tornou-se símbolo de uma política externa onde a força e a chantagem substituem normas e alianças. A Europa respondeu com apelos à unidade e firmeza, enquanto renegocia acordos de defesa e pondera rearmar-se para reduzir a dependência de Washington.

4.No Ártico, Trump conseguiu impor a sua agenda: presença reforçada da NATO, restrições ao acesso russo e chinês a minerais estratégicos e um debate aberto sobre soberania que abalou profundamente o Ocidente. No Médio Oriente, a ambiguidade repete-se. A retórica de dissuasão em relação ao Irão convive com sinais de escalada, frotas “por precaução”, porta-aviões na região, enquanto Teerão responde com repressão interna e desafios verbais à comunidade internacional.

5.O resultado é um mundo mais fragmentado. Como advertiu o primeiro-ministro canadiano, “a velha ordem mundial não vai voltar”. A entrevista a Alfred W. McCoy no Expresso foi clara: Trump acelera o declínio imperial dos EUA e empurra o sistema internacional para uma lógica de esferas de influência. Entre a Venezuela pós-Maduro, um Ártico militarizado e um Médio Oriente à beira do confronto, instala-se aquilo que vários analistas já chamam de colapso silencioso da ordem internacional.

6.Neste cenário, a pergunta deixa de ser se haverá instabilidade, mas quem conseguirá navegar nela. Para a Europa, o desafio é existencial: manter a calma, reforçar a autonomia estratégica e decidir quando cortejar e quando desafiar Washington. Para países como a Venezuela, trata-se de sobreviver politicamente num mundo onde o poder voltou a falar mais alto do que o direito.

Manuel Ferreira dos Santos

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