O recente tiroteio na Rua do Benformoso, em Lisboa, que provocou três feridos, um deles em estado crítico, constitui mais um sinal de alerta num contexto que tem suscitado crescente preocupação pública.
Independentemente das circunstâncias concretas, episódios desta natureza reforçam a urgência de uma reflexão séria e estruturada que incida sobre determinadas questões, nomeadamente a segurança urbana[1], a prevenção da criminalidade e o fortalecimento da confiança entre comunidades e instituições. Territórios seguros são um pilar essencial da coesão social, da dinâmica económica e da qualidade de vida dos cidadãos.
A prevenção deste tipo de ocorrências vai muito além do simples reforço de meios operacionais no terreno, embora, sem ilusões, estes sejam indispensáveis na resposta imediata e na dissuasão. O caminho deve assentar, sobretudo, numa estratégia preventiva sólida, baseada na recolha qualificada de informação no terreno, no conhecimento das dinâmicas locais e numa atuação antecipatória.
Impõe-se, por isso, a implementação de políticas integradas que incidam sobre as causas estruturais da exclusão, da marginalização e da violência, através de uma abordagem verdadeiramente multidisciplinar e multissetorial. Só a articulação entre segurança, educação, ação social, justiça e poder local permitirá construir respostas sustentáveis e reduzir de forma consistente o risco de recorrência destes fenómenos.
A nova liderança no Ministério da Administração Interna terá o desafio de transformar a legítima preocupação pública em ação consistente, coerente e estruturante, capaz de produzir resultados mensuráveis e restaurar a perceção de segurança.
O episódio do Benformoso não deve ser encarado como um caso isolado, nem como um indício de uma espiral incontrolável. Para inverter esta tendência, o caminho passa por uma abordagem equilibrada e integrada, que una segurança, justiça, inclusão social e boa governação, sob pena de estes fenómenos se tornarem mais frequentes ou, pelo menos, mais presentes na consciência coletiva. Caso contrário estará aberto o caminho a uma inaceitável normalização do fenómeno.
Sousa dos Santos
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[1] Sobre esta matéria ver também a Estratégia Integrada de Segurança Urbana (EISU).

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