No último Relatório Anual de Segurança Interna refere-se que em 2024 registaram-se 8354 furtos de veículos motorizados. Consta ainda deste documento que o furto de veículos motorizados deve levar-nos a questionar a evolução dos “modus operandi” dos grupos envolvidos neste tipo de ilícitos, tendo em conta as diferentes tecnologias antifurto com que as viaturas são equipadas de origem. 
Estes furtos desdobram-se em dois grupos: os furtos de curto prazo (furto de uso) e os furtos motivados pelo lucro. Os veículos deste último grupo, em regra, acabam por não ser recuperados. A grande maioria tende a ser desmantelada para alimentar o mercado de peças, sendo cada vez menores os indícios de que as viaturas furtadas em Portugal venham a ser viciadas enquanto veículos completos.
De acordo com um comunicado da Europol, uma rede criminosa organizada altamente especializada, responsável pelo furto de mais de 100 automóveis híbridos de luxo, foi desmantelada numa operação internacional liderada pelos Carabinieri italianos, com o apoio da Europol, da Eurojust, da Guardia Civil espanhola e da Polícia Judiciária Federal de Antuérpia. O valor estimado de todos os veículos furtados ascende a pelo menos 3 milhões de euros. A operação resultou em nove detenções e na apreensão de 35 000 euros em numerário e 150 000 euros em criptomoedas.
A rede criminosa (associação criminosa de natureza transnacional) era composta por cidadãos moldavos, russos, romenos e ucranianos, tinha como alvos veículos híbridos de gama alta (predominantemente Range Rover, Lexus e Toyota) nas regiões do norte de Itália e na zona de Marbella, em Espanha. Os automóveis furtados e os seus componentes (carroçarias, baterias e peças mecânicas) eram enviados através do porto europeu de Antuérpia para mercados ilegais internacionais.
Acresce que os criminosos atuavam com uma precisão de estilo militar. As investigações revelaram:
- Equipas especializadas dedicadas ao furto, armazenamento e falsificação de veículos;
- Utilização de localizadores para monitorizar os veículos-alvo (AirTags);
- Ferramentas eletrónicas para contornar os sistemas de segurança;
- Alteração dos números de identificação dos veículos (VIN) e das matrículas de automóveis abatidos, para disfarçar os carros furtados;
- Ligações com empresas de transporte marítimo e cúmplices criminais para movimentar os veículos através de Antuérpia.
A investigação apurou ainda que existia um complexo sistema de pagamentos, envolvendo múltiplas plataformas e carteiras de criptomoedas, tendo sido identificadas transferências no valor de cerca de 1 milhão de euros em ativos digitais.
Desta forma é imperativo que as Forças e Serviços de Segurança portugueses não encarem o furto de veículos apenas como um crime contra o património, mas sim como uma atividade central de grupos transnacionais que estão em constante mutação aproveitando-se das vulnerabilidades internas e de outras dinâmicas.
Nos termos da respetiva lei orgânica, faz parte do leque de atribuições específicas da Guarda Nacional Republicana assegurar o ponto de contacto nacional para intercâmbio internacional de informações relativas aos fenómenos de criminalidade automóvel com repercussões transfronteiriças, sem prejuízo das competências atribuídas a outros órgãos de polícia criminal.
Não restam dúvidas que o caminho passa pelo reforço de respostas integradas, transnacionais e tecnológicas, combinando investigação criminal, cooperação internacional e estratégias de prevenção, de modo a proteger tanto os cidadãos como o mercado automóvel legal.
Por fim, não se pode perder de vista que a adaptação contínua da criminalidade aos avanços tecnológicos exige monitorização permanente, formação especializada e investimento em capacidades de investigação para garantir a eficácia na repressão e prevenção deste tipo de ilícitos.
Manuel Ferreira dos Santos

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