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Segurança

Manifestação de polícias – estilhaços

Por diversas ordens de razões, gosto pouco de escrever sobre este assunto, mas tendo emlobo conta o verdadeiro tsunami que se gerou em torno do evento achei que não poderia deixar de tecer alguns considerandos:

  1. A manifestação correu de forma ordeira e sem incidentes de maior, ao contrário do que algumas correntes mais alarmistas previam, aliás não regatearam esforços nesse sentido aludindo de uma forma sistemática à subida das escadarias em 2013. No decurso da mesma ficou bem patente que as Forças de Segurança gozam de grande prestígio junto da população em geral.
  2. Neste momento, não restam dúvidas a nenhum cidadão português sobre uma multiplicidade de problemas que afectam as Forças de Segurança, os quais se foram acumulando ao longo dos anos (vencimentos, recursos humanos, instalações, viaturas, etc…), sem que se tenha ido além da resolução de casos pontuais. Ainda se tentou negar esta realidade, utilizando a velha técnica de tapar o sol com uma peneira, só que os factos são por demais evidentes, e até começam a provocar alguns atritos entre os gabinetes ministeriais envolvidos.
  3. Relativamente aos sindicatos e associações sócio-profissionais, paira no ar uma “sensação de esgotamento do modelo”[1]. É de referir que, de uma forma geral, o número de trabalhadores sindicalizados tem vindo a diminuir de forma drástica[2]. 
  4. Daí a vitalidade do denominado Movimento Zero, cujo “mar branco” literalmente “cilindrou” as restantes organizações presentes no evento. Convém frisar que em 2013, no auge da troika, a manifestação de Forças e Serviços de Segurança (ASAE, GNR, Guarda Prisional, PSP, Polícia Marítima, SEF) juntou 8 mil manifestantes, enquanto agora, só das duas Forças de Segurança (GNR e PSP), estiveram presentes 13 mil, a isto não será estranha a capacidade de mobilização que o dito movimento tem, bem patente no seu desempenho em termos de redes sociais. 
  5. O momento marcante do evento, o seu zénite, foi a “apropriação” do megafone de uma das organizações por André Ventura vestindo uma camisola do Movimento Zero, a subida ao palanque e o seu discurso que catalisou a multidão. Finda a sua alocução a multidão dispersou.
  6. À medida que o efeito inebriante foi passando, alguns dos participantes, tomaram consciência do que tinha acontecido, sobretudo do facto do referido movimento e do deputado do Chega terem sido as “estrelas do momento”. Para tentar recuperar a iniciativa, porque alguns dos seus apaniguados vieram para as redes sociais ameaçar que queimavam os cartões de sócios imitando as feministas com os soutiens, começaram a tentar açambarcar todos os microfones. Por sua vez, os comentadores e outros opinadores proferiram as mais variadas e despropositadas declarações. Ainda hoje, decorrida uma semana, os estilhaços do evento continuam a cair nas redes sociais e na imprensa.
  7. Certamente que nada voltará a ser como antes, as associações sócio-profissionais e os sindicatos das Forças e Serviços de Segurança, bem com o Governo, terão de contar com estes “movimentos ditos inorgânicos” .
  8. Estes movimentos só surgem quando há espaço para tal. E no caso do “Movimento Zero” devido à dimensão que o fenómeno atingiu, tudo se deve às muitas expectativas dos elementos das Forças de Segurança a que os seus responsáveis máximos (em primeira mão), a tutela e “os movimentos orgânicos” não conseguiram dar resposta.
  9. Assim, embora tenha a perfeita noção, para o bem e para o mal, que desta manifestação em diante nada voltará a ser igual, para tentar minimizar os danos, as associações e sindicatos têm de se reinventar. Os responsáveis máximos das Forças de Segurança devem ter um papel activo na transmissão dos problemas  à tutela e mostrar interesse em resolvê-los, não deixando transparecer a sensação que se deposita a esperança numa espécie de “mão invisível” recheada de soluções.
  10. Por fim, o executivo, seja ele de direita, de centro ou de esquerda, tem de começar a ver as Forças de Segurança com outros olhos, investir nelas, redignificá-las, agir em função das causas e deixar-se de atuações meramente conjunturais (“maquilhagens”) que só criam “vazios” facilmente aproveitáveis para os mais variados fins. 

J.M.Ferreira

______________________________

[1]  Os indícios pairavam no ar há algum tempo, basta recuarmos à necessidade de constituição da Associação A Nossa Causa para tratar dos problemas relacionados com reserva/reforma criados pela CGA aos militares da Guarda Nacional Republicana. 

[2] “A taxa de sindicalizados deverá situar-se entre os 8,3% do Livro Verde e os 19,3% publicados no ICTWSS Database”, In Expresso de 01/05/2018.

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