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droga, Investigação Criminal, Justiça, Segurança

O desafio dos narcossubmarinos

Nos últimos anos, o Atlântico tem-se transformado numa rota cada vez mais sofisticada para o tráfico de drogas rumo à Europa. Entre os instrumentos mais impressionantes desta tendência estão os chamados narcossubmarinos: embarcações semi-submersíveis construídas em estaleiros clandestinos na América do Sul, capazes de transportar toneladas de cocaína por milhares de milhas, evitando a deteção das autoridades.

A recente interceção, em pleno Atlântico, de um semi‑submersível transportando aproximadamente nove toneladas de cocaína, demonstra que o combate ao crime organizado, quando assente na cooperação internacional eficaz e numa capacidade operacional robusta, é capaz de gerar resultados com grande impacto.

A operação, conduzida pela Polícia Judiciária (PJ) em articulação com a Marinha e a Força Aérea, e apoiada por parceiros internacionais, ocorreu a cerca de 230 milhas dos Açores, em condições meteorológicas adversas. Um pormenor deveras importante: revela não apenas competência técnica, mas também prontidão para atuar num vasto espaço marítimo, poroso e cada vez mais disputado pelas redes criminosas transnacionais.

O envolvimento de entidades como a DEA, a NCA e o MAOC-N confirma uma evidência frequentemente esquecida no debate público: o tráfico de droga não é um problema estritamente nacional. As rotas são globais, as organizações são altamente especializadas e os meios utilizados, como os chamados narcossubmarinos, refletem um nível de sofisticação que desafia os modelos tradicionais de vigilância e interceção.

Importa ainda recordar que, em novembro de 2025, no âmbito da operação “El Dorado”, a PJ intercetou outra embarcação deste tipo, transportando quase duas toneladas de cocaína, tendo sido detidos quatro tripulantes de nacionalidade venezuelana. Já em março do mesmo ano, na sequência da “operação Nautilus”, foi apreendido um outro submersível com cerca de sete toneladas de droga a bordo, operação que resultou na detenção de cinco traficantes.

Fabricados em estaleiros clandestinos na América do Sul, estes semi-submersíveis recorrem a materiais não metálicos, tecnologia de navegação avançada, comunicações por satélite e grande autonomia operacional. Capazes de transportar várias toneladas de cocaína ao longo de milhares de milhas, são um instrumento caro, complexo e reservado a organizações com elevada capacidade financeira. 

Por isso, a resposta a esta ameaça não se constrói com ações isoladas nem com soluções de curto prazo. É um desafio que exige investimento continuado em meios navais e aéreos, tecnologia, inteligência partilhada e, sobretudo, confiança entre parceiros internacionais. Portugal, pela sua posição geográfica e responsabilidade atlântica, não pode abdicar desse papel.

A operação Adamastor transmite uma mensagem inequívoca: o Atlântico não é terra de ninguém. Quando há vontade dos diversos atores e decisores, coordenação e antecipação, é possível proteger rotas, travar redes criminosas e contribuir de forma efetiva para a segurança coletiva.

L.M.Cabeço

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