A Dinamarca acaba de alargar o serviço militar obrigatório a ambos os sexos e de aumentar a sua duração para 11 meses. Os primeiros recrutas deste novo modelo iniciaram o serviço a 3 de agosto, num sistema que prevê cinco meses de formação e seis meses de serviço operacional, incluindo novas especializações, designadamente na operação de drones.

É inevitável estabelecer uma comparação com Portugal.
O nosso país abandonou, em tempo de paz, o modelo tradicional de serviço militar obrigatório em 2004. Atualmente, o recrutamento normal assenta no voluntariado e no contrato, embora a própria Lei do Serviço Militar continue a prever mecanismos de recrutamento excecional, convocação e mobilização quando as necessidades fundamentais das Forças Armadas o justifiquem.
Entretanto, a discussão voltou a entrar na agenda. Em 2026, o Parlamento aprovou a recomendação para a criação do programa “Defender Portugal”, um regime voluntário destinado a jovens dos 18 aos 23 anos, com uma passagem de três a seis semanas pelas Forças Armadas.
Mas talvez seja necessário colocar a questão de outra forma.
Portugal precisa de recuperar o antigo serviço militar obrigatório ou necessita de construir um novo modelo de preparação e mobilização nacional para a Defesa?
Não são exatamente a mesma coisa. São realidades muito distintas.
A guerra na Ucrânia demonstrou que o campo de batalha mudou radicalmente. Drones, sistemas autónomos, guerra eletrónica, inteligência, sensores, comunicações, ciberdefesa e fogos de precisão alteraram profundamente a forma como se produz poder militar. As próprias Forças Armadas ucranianas afirmam que os drones são responsáveis pela maior parte dos alvos inimigos atingidos em 2026.
Isto não significa que os militares tenham deixado de ser necessários. Muito pelo contrário. Significa que as necessidades de pessoal são hoje diferentes.
Um eventual modelo português não deveria, portanto, ser uma simples reprodução da antiga incorporação massiva de milhares de jovens para lhes ensinar ordem unida, tiro e disciplina militar.
Deveria perguntar antes de tudo mais: de que reserva estratégica Portugal necessita?
Operadores de drones. Especialistas em comunicações. Informáticos e técnicos de cibersegurança. Mecânicos. Engenheiros. Profissionais de saúde. Especialistas em guerra eletrónica. Logística. Inteligência. Proteção de infraestruturas críticas. E, naturalmente, militares preparados para as tradicionais funções de combate, hoje sujeitas a níveis de exigência, especialização e preparação operacional substancialmente superiores aos do passado. O caso do militar ucraniano que permaneceu 346 dias no inferno das trincheiras de Donetsk ilustra, de forma particularmente dramática, esta nova dimensão da guerra.
A tecnologia não elimina a necessidade de recursos humanos; altera o perfil dos recursos humanos necessários.
Por isso, discutir novamente o serviço militar em Portugal não deveria ser um debate ideológico entre os que querem “a tropa como antigamente” e os que rejeitam qualquer forma de obrigatoriedade.
A verdadeira discussão é bastante mais séria: numa Europa que voltou a preparar-se para a possibilidade de um conflito de elevada intensidade, que capacidade de mobilização tem Portugal se um dia precisar de aumentar rapidamente os seus efetivos?
A Dinamarca já começou a responder.
Portugal deveria, pelo menos, começar a fazer a pergunta.
J.M.Ferreira

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