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Defesa, Segurança

Segurança – capacidade de antecipação

Há uma tendência demasiado cómoda no debate sobre segurança: reagir. Depois de um acidente grave que é tema de abertura dos telejornais, reforça-se a fiscalização. Depois de crime hediondo, pede-se mais policiamento. Depois de uma sabotagem ou de um problema com uma infraestrutura crítica, descobre-se que havia vulnerabilidades conhecidas. É uma lógica reativa que serve para gerir crises, mas raramente para as evitar.

A condução sob efeito do álcool é um exemplo quase obsceno dessa incapacidade coletiva de aprender. A Guarda Nacional Republicana (GNR) detém cerca de 280 condutores por semana por apresentarem uma taxa de álcool que constitui crime e já ultrapassou as oito mil detenções este ano. O número além de ser elevado, é, ao mesmo tempo, revelador de uma tolerância social persistente perante um comportamento que mata.

Continuamos a tratar demasiadas vezes o álcool ao volante como uma imprudência, quando estamos perante uma decisão consciente de expor terceiros a um risco grave. A fiscalização é necessária, mas o verdadeiro problema está na cultura de permissividade que ainda rodeia este comportamento.

Nas cidades, o discurso também oscila entre dois extremos: o alarmismo e a negação. Em Lisboa, fala-se em efetivos mínimos e na necessidade de reforçar a presença policial, ao mesmo tempo que se pede contenção na retórica sobre insegurança. A prudência no discurso é saudável. Mas, os problemas não podem ser desvalorizados e varridos para debaixo do tapete.

Pode discutir-se a perceção de insegurança até à exaustão. Mas uma coisa é certa: nenhuma estatística substitui agentes na rua, capacidade de investigação, patrulhamento de proximidade, investimento em tecnologia,  resposta rápida e realização de inquéritos de vitimação para aferirmos da verdadeiro “estado da arte”. Quando os recursos são insuficientes, o problema não desaparece porque se evita a palavra “insegurança”.

A questão torna-se ainda mais séria quando se olha para a Europa. A Dinamarca alerta para possíveis operações de sabotagem russas e a Alemanha, além do recente episódio de Leipzig, investiga ataques incendiários contra empresas ligadas à defesa. O receio de novas ameaças híbridas deixou há muito de pertencer ao domínio da ficção estratégica.

Sabotagem, ciberataques, desinformação, espionagem e pressão sobre infraestruturas críticas são hoje instrumentos de conflito. O problema é que a Europa ainda parece, em demasiados casos, preparar-se para ameaças do passado enquanto enfrenta riscos do presente.

No trânsito, espera-se pelo acidente. Na segurança urbana, espera-se pela degradação. Na defesa europeia, espera-se pela sabotagem confirmada.

E depois surgem comunicados, operações, reforços e promessas de duvidosa eficácia.

A segurança não pode continuar a ser administrada como uma sucessão de emergências. Um Estado competente não se mede apenas pela forma como reage quando algo corre mal. Mede-se, sobretudo, pela capacidade de impedir que aquilo que era previsível se transforme no próximo problema.

L.M.Cabeço

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