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Segurança

A propaganda do horror

Os recentes casos divulgados na imprensa e nas redes sociais causaram alarme em vários países, gerando a imagem de uma nova dimensão de crime de massa contra as mulheres europeias numa estratégia de horror.  

Após análise das várias notícias verifica-se que os casos divulgados na Finlândia, na cidade de Helsínquia, na Alemanha na cidade de Colónia e na Suíça na cidade de Zurique, em que homens alegadamente de aparência árabe e/ou africana, e/ou magrebina, em locais com grande aglomerado de pessoas, alegadamente, tocaram, apalparam e assaltaram mulheres no meio da rua, na noite de passagem de ano[1].

Desconhecem-se ainda pormenores destes casos, uma vez que estão em investigação, de qualquer modo, a pressão, a diversos níveis, foi de tal ordem que a agenda política teve de ser alterada. De imediato, a atuação de algumas instituições com responsabilidades na matéria foi posta em causa, pelo que os seus responsáveis terão sido, nalguns casos, exonerados.

Além disso, muito se especulou de como prevenir este fenómeno, e mesmo se já existiam iniciativas do género, ou não, nesses países. Devido a este interesse, doravante as iniciativas para prevenir e sensibilizar as populações refugiadas sobre estas temáticas, passam a ser do domínio público. Os países hospedeiros desta malha de cidadãos oriundos de outras zonas do globo, regulam a vida em sociedade através de um conjunto de normas aplicáveis a quem está e a quem vem. A História está recheada de narrativas que se contam de um lado e de outro, de quem recebe e de quem se refugia, de quem “invade” e de quem é “invadido”.

As alegadas ofensas relacionadas com roubos e agressões de cariz sexual, nestes países do Norte da Europa revelam ser fenómenos de “massa” que trouxeram nova roupagem ao “modus operandi” destes ofensores. Senão vejamos, os órgãos da comunicação social na cidade de Colónia, na Alemanha, referem ora estarmos na presença para o mesmo fenómeno e mesma data, de 120, ou 80, ou 90, ou 60 casos de abuso sexual, e de 2, ou de 1 violação, e em Zurique de 25 casos de roubo, ou de agressão ou de violência sexual. Depois verificamos que, ora as vítimas são cercadas e tocadas por vários homens que estavam no meio da multidão, ou apalpadas, ou assediadas, ou roubadas ou molestadas sexualmente, ou agredidas sexualmente ou tudo em conjunto nas múltiplas formas para o mesmo facto e situação. Mais, estes relatos na mesma cidade ora aconteceram na estação de caminhos-de-ferro, ora aconteceram junto à catedral, ora aconteceram em simultâneo. Quanto aos ofensores ora, eram dezasseis, ora eram jovens alcoolizados, ora eram um milhar … na mesma cidade, à mesma hora, no mesmo local.

A criminalidade na imprensa oferece vários produtos a vários grupos de pressão ou de interesse, mormente a veracidade e as motivações que subjazem a tais atos. De acordo com Rodrigues (2010)[2], as organizações produtoras de notícias não apenas influenciam, mas são também elas influenciadas pela hierarquização de temas e acontecimentos no espaço público, não lhes sendo particular ou exclusivo o controlo deste processo.

Reconhecem-se diversos interesses estratégicos e comerciais na esfera da produção mediática, e não se espera que esta revele uma correspondência direta com a sua frequência nos registos oficiais. O discurso dos mass media sobre a violência influencia a perceção pública, abrindo caminho para novos discursos e contribuindo para sentimentos de insegurança. É preciso refletir sobre esta influência mediática quando, os mass media parecem operar de molde a permanentemente oferecer uma imagem da realidade que parece distinta da situação real, problematizando ocorrências muito além da sua relevância na sociedade e contribuindo, possivelmente, deste modo, para o aumento de sentimentos de insegurança (Rodrigues, 2010).

De facto, na nossa sociedade ocidental que se quer pluralista e defensora dos direitos universais, a nossa liberdade termina quando interfere com a do outro e se temos direitos também temos os deveres correspondentes. Quem recebe acolhe, quem visita ou pede asilo é convidado a estar, quando estas normas de conduta não são respeitadas em nome de uma história e de uma cultura, dá-se o confronto, contudo se este infeliz confronto é ilícito e é criminalizável, resta-nos a justiça, os tribunais e as polícias, primeiro e último reduto do garante dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos.

Diz o adágio popular que em “Roma … faz-se como os romanos”, basicamente respeitando-se é-se respeitado em qualquer cultura ou religião e não há registo de religião monoteísta que fomente a violência, independentemente dos credos, seja qual a for a forma dessa violência. 

O fenómeno do comportamento de massas é explicado como sendo agrupamentos humanos espontâneos e, portanto,
imprevisíveis, transitórios e desprovidos de organização interna. É um fenómeno produzido pela soma das ações individuais das pessoas espalhadas e sem contacto direto e contínuo mas que vão na mesma direção. Os primeiros estudos sobre as massas baseavam-se no comportamento anormal das pessoas numa dada situação, em 1895, o médico e sociólogo francês Gustave Le Bon publicou o livro Psicologia das Massas (Psichologie des Foules, 1895) que de um ponto de vista psicossocial, explica que quando as pessoas fazem parte de uma massa deixam de ser elas próprias para fazerem parte do que ele chamou “alma da massa” ou espírito coletivo diferente do espírito individual de cada um dos indivíduos que fazem parte do fenómeno.

Em suma, a Europa nos últimos tempos viu-se confrontada com a afluência massiva de refugiados que fogem de zonas de conflito, sobretudo do Médio Oriente, das quais em que atua o Daesh. Por muito que nos custe a aceitá-lo “nem todas as civilizações são iguais[3], perante o mesmo quadro situacional podem surgir reações diferentes, nalguns casos geradoras de medo e de horror.

Estes sentimentos, à semelhança do que aconteceu no passado, podem servir de lastro às “franjas extremistas” catapultando-as para o poder através da conquista dos cidadãos incautos, imersos num complicado caldo social e por isso alvos fáceis de uma propaganda xenófoba.

Logo, a chave residirá nos seguintes pontos:

  • Resolver o problema na origem, para evitar esta fuga desordenada em direção ao continente europeu;
  • Promover um efetivo controlo nos principais pontos de entrada na União Europeia, para evitar “práticas abusivas” de asilo, a vinda de terroristas no meio das hordas de refugiados, e a atividade das organizações criminosas que se dedicam ao tráfico de seres humanos;
  • Depois, como atrás se referiu, em “Roma… faz-se como os romanos”, logo quem aceder ao espaço europeu deve aceitar as respetivas regras de vivência em sociedade, não havendo “lugar para quem não estiver disposto a isso”[4], tudo dentro do quadro de direitos, liberdades e garantias, integrando sem se cair nalguns desvarios que começam a afetar vários países;
  • Para aceitar essas regras é necessário conhecê-las, daí que se proponha o seguinte modelo de intervenção:

modint

                              Fonte : Mascoli, L. & Ferreira, A. (2015)

Luisa Mascoli

Alexandra Ferreira

_______________________________________________

[1] Este modus operandi ganhou visibilidade no Egito, quando em 2011, na praça Tahrir, no Cairo, a jornalista Lara Logan foi assediada por vários locais, que acabaram por violá-la. O relato padrão destes eventos assenta no seguinte modelo: homens divididos em grupos numerosos cercam mulheres, para as roubar, para as agredir, para as assediar e, em muitos casos, para as violar.

[2] Rodrigues, P. (2010). Criminalidade Impressa: Análise do Correio da Manhã, 2000 – 2007. Sociologia, Problemas e Práticas, Vol.(64), 149–172.

[3] Miguel Angel Belloso, in DN – “A crise migratória… e muçulmana”, disponível em  http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/miguel-angel-belloso/interior/a-crise-migratoria-e-muculmana-5004765.html, consultado em 29/01/2016.

[4] Idem

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