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Catástrofes, Saúde, Segurança

O momento não é de festejos

1 . Somos dotados de uma particular habilidade para a arte argumentativa, em muitos casos roçando um certo gongorismo. Vem isto a propósito da utilização das máscaras, em articulação com o distanciamento físico e a etiqueta respiratória, por parte da população em geral para se proteger do vírus que infestou o nosso dia-a-dia.

O Conselho das Escolas Médicas Portuguesas, o presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública, o Centro Europeu de Controlo de Doenças, defendem esta posição, e a própria Ministra da Saúde afirmou, numa entrevista dada à RTP que a Direção Geral de Saúde (DGS) teve parecer positivo nesse sentido, referindo ainda as autoridades precisam de estar abertas a adaptar-se e ter “uma dinâmica muito rápida”. Por sua vez, a DGS continua a recomendar o uso de máscaras, apenas, por alguns grupos profissionais e doentes.

A este propósito, tem sido mencionado o caso da República Checa, país que tem 10 milhões de habitantes, metade dos infetados e um quarto dos mortos de Portugal, mas que desde o início impôs a utilização de máscara em locais públicos. Para colmatar a escassez deste tipo de proteção, têm sido apresentadas diversas soluções alternativas que aconselhamos a explorar, seguindo sempre as recomendações de segurança para a sua utilização.

Tudo isto, no momento em que são divulgados estudos que apontam para a permanência no ar das pequenas partículas que transportam o novo coronavírus mais tempo do que inicialmente se pensava, como é demonstrado por um estudo finlandês sobre a forma como a tosse ou um espirro espalha o Covid-19 num supermercado.

2 . Não obstante, alguns portugueses convenceram-se que o momento é propício a festejos e continuam a reunir-se aos magotes, comendo, bebendo e dançando, completamente alheios à realidade e às implicações dos seus comportamentos para a sua segurança (sanitária)  e para a dos outros (esta parece que não lhes interessa muito). No caso de Castro de Aire, o “rebuliço” atingiu um tal patamar que o presidente da Câmara veio a público dar o seu apoio à implementação de um cordão sanitário que, para já, não avançará. E, para evitar episódios mais ou menos caricatos que só descredibilizam as forças de segurança que estão no terreno a fazer cumprir as medidas do estado de emergência, ao que consta os crimes de desobediência passarão a ter resposta adequada.

3 . Os ventos sopram de feição para os oportunistas e outras categorias mais ou menos conexas. Organizações sem escrúpulos aproveitaram para implementar a venda de medicamentos falsificados destinados a doentes com o Covid-19. Os burlões vão aparecendo com as suas artimanhas para enganar os mais incautos, enquanto outros se dedicam à especulação. Até as filas para as farmácias são terreno fértil para os delinquentes.  Nas estradas da Europa, os camionistas que transportam materiais e equipamentos sanitários estão a ser alvo de perseguição e tentativas de abordagem.

4 . A nível planetário, o número de mortos ultrapassa 90 mil. Nos Estados Unidos, a braços com um crise sanitária de dimensões gigantescas, depois de uma série de argumentos de Trump terem caído por terra, ficou-se a saber que afinal o Covid-19 terá chegado a Nova Iorque a partir da Europa, e não da Ásia. Mais a sul, Bolsonaro anunciou a intenção de recorrer da decisão que proíbe governo de travar isolamento social. Na Rússia, empenhada no combate às notícias falsas, bateram-se recordes de infeções diárias. Em África, os números continuam a subir. Na Austrália, um ministro foi multado por quebrar regras de confinamento, e na vizinha Nova Zelândia, o ministro da Saúde foi à praia em período de quarentena. Na China, onde foi decidido deixar de comer carne de gato e de cão, o número de casos que vão sendo registados são sobretudo importados, parecendo, que por enquanto, o pior já passou.

5 . Por cá, nas últimas 24 horas, registou-se um aumento de 11% no número de infetados (mais 1516 casos – o pior dia), um total de 435 vítimas mortais (acréscimo de 26 mortes) e 233 pessoas recuperadas, podendo isto ser apenas a ponta do icebergue. Nunca Portugal tinha tido tantos contágios em 24 horas, como afirmou Marcelo Rebelo de Sousa “não podemos brincar em serviço, não podemos afrouxar, baixar a guarda”.

Decididamente, o momento não é de festejos.

Manuel Ferreira dos Santos

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