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Saúde, Segurança

Descontrolo

Numa intervenção na RTP, debaixo de um nervosismo miudinho que tentava disfarçar a todo o custo, a senhora Ministra da Saúde afirmou que, em matéria de Covid-19, não há descontrolo na Área Metropolitana de Lisboa (AML).

Mas, por enquanto, há indícios que apontam noutro sentido. No Cacém, agentes da PSP foram agredidos por uma família que quebrou confinamento obrigatório. Uma agente acabou por receber tratamento no Hospital Amadora – Sintra, e outros dois ficaram com escoriações e traumatismos. Mais um caso que se vem juntar a outros e que, tal como escreveu recentemente Manuel Carvalho, são “exemplos de irresponsabilidade e testemunhos de subdesenvolvimento que temos de enfrentar”.

Além disso, na AML, as entidades responsáveis debatem-se com dificuldades sérias na localização de muitos doentes (100 por dia) que vão fornecendo moradas e contactos telefónicos que não correspondem à realidade. Tal comportamento compromete a dinâmica de confinamento e de tratamento, e ao mesmo tempo facilita a disseminação do vírus na comunidade. Acresce que segundo o Expresso, “há vários indicadores que não põem em causa a privacidade dos doentes e que permitiriam retratar a evolução da epidemia em Portugal, mas que continuam a não ser divulgados publicamente”.

Perante este quadro, o pneumologista Filipe Froes diz que faltou estratégia no desconfinamento, e o Presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública não percebe porque é que a saúde pública há de ser gerida com este amadorismo. Para evitar problemas, depois de há uma semana ter contrariado a tese defendida pelo Primeiro Ministro de que  o aumento de casos em Lisboa estava relacionado com o aumento de testes, a chefe de epidemiologia e estatística abandona a DGS e vai ocupar um cargo na ONU.

Para impedir que a situação se agrave e obstar a que a inquietação, a perturbação e o medo associados a esta temática aumentem, com a consequente interferência negativa no sentimento de segurança da sociedade, foi determinado que os intervenientes na gestão de casos de doença COVID-19 e dos seus contactos que participam na vigilância epidemiológica e no apoio à sua realização, se encontram vinculados a um especial dever de colaboração e de celeridade na sua atuação, no quadro das suas competências. Como não poderia deixar de ser, a vigilância do cumprimento das determinações de confinamento domiciliário realiza-se diariamente pelas forças e serviços de segurança ou polícia municipal, mas sem direito ao prémio de desempenho atribuído a outros profissionais envolvidos no combate à pandemia.

Uma missão que não se afigura fácil, num país onde bastantes cidadãos se convenceram que apenas têm direitos cabendo os deveres a uma franja diminuta. Mas essa missão é árdua, espinhosa,  sobretudo devido à forma como num passado recente foram encaradas as agressões de elementos das forças de segurança e de outros profissionais do sector público (médicos, enfermeiros, professores, magistrados), esquecendo-se que era o próprio Estado que estava a ser ofendido e a sua autoridade a ser posta em causa, provocando danos irreparáveis na frágil equação liberdade versus segurança.

L.M.Cabeço

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