Atravessamos dias que condensam três das grandes tensões: a vulnerabilidade das infraestruturas perante fenómenos extremos, a normalização preocupante da violência, sobretudo entre os mais jovens, e um quadro internacional cada vez mais instável, com a guerra na Ucrânia e as divisões no espaço euro-atlântico a marcarem o ritmo.
1.A passagem das intempéries que nos atingiram expuseram fragilidades antigas. Cortes na A1 na zona de Coimbra, suspensão de comboios entre Lisboa e Porto, pessoas desalojadas em Almada e no Porto Brandão, redes de telecomunicações com avultados danos, a lista é longa e inquietante.
A presença surpresa do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, em Coimbra, com apelos às seguradoras para acelerarem peritagens, teve forte carga simbólica: o Estado procura mostrar proximidade num momento em que muitos perderam “tudo o que ganharam numa vida”. Mas a dimensão do impacto levanta questões estruturais.
O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, António Pimenta Machado, afirmou que “estamos na luta, mas o jogo não terminou”. A metáfora desportiva traduz bem o momento: a resposta de emergência tem sido visível, Exército no terreno, milhares de sacos de areia colocados para conter o Mondego, gestão das barragens considerada determinante, mas a prevenção continua aquém do necessário.
As alterações climáticas deixaram de ser uma mera abstração, sendo Portugal um dos países mais vulneráveis neste domínio. A repetição de eventos extremos, a crescente pressão sobre infraestruturas envelhecidas e a concentração populacional em zonas vulneráveis exigem uma revisão profunda do ordenamento do território, da fiscalização urbanística e dos mecanismos de compensação. Não basta reconstruir; é preciso reconstruir melhor.
2.Quase 70% dos jovens em Portugal legitimam a violência no namoro. O número é chocante e obriga a uma reflexão coletiva. A par deste dado, sucedem-se casos de violência doméstica, abusos prolongados no seio familiar e crimes cometidos por jovens ou contra jovens.
Não se trata apenas de uma mera estatística criminal. Trata-se de cultura. Quando a violência é relativizada, quando o controlo e a humilhação são confundidos com paixão, quando as redes sociais amplificam comportamentos tóxicos, estamos perante um problema de educação emocional e cívica.
Neste domínio, tal como noutros, a resposta não pode ser exclusivamente penal. Exige uma intervenção precoce nas escolas e universidades, formação específica para docentes, campanhas dirigidas aos adolescentes e apoio efetivo às vítimas. A banalização da violência no namoro é o embrião de futuras dinâmicas de violência doméstica. Ignorá-la é perpetuar o ciclo.
Ao mesmo tempo, o aumento de apreensões de “gás do riso” e outros sinais de comportamentos de risco indicam um mal-estar difuso entre os mais novos. A saúde mental juvenil, já pressionada pela pandemia, não pode continuar a ser tratada como tema lateral.
3.No plano internacional, a guerra na Ucrânia continua a redesenhar equilíbrios. O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou ver o eventual fim da guerra como uma vitória política para Donald Trump, num contexto em que novas negociações estão previstas para Genebra.
Entretanto, as divisões internas nos Estados Unidos tornam-se visíveis: a política de Trump relativamente à Gronelândia divide a sua própria base eleitoral; o Congresso enfrenta risco de paralisação orçamental; o maior porta-aviões do mundo segue para o Médio Oriente enquanto as tensões com o Irão aumentam.
No espaço euro-atlântico, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, manifesta confiança na manutenção de uma presença forte dos EUA na Aliança. Ainda assim, a incerteza é estrutural. A Europa prepara-se para cenários que até há poucos anos seriam considerados impensáveis, indo do reforço militar acelerado aos conflitos híbridos mais intensos.
Para Portugal, membro da União Europeia e da NATO, este contexto exige clareza estratégica. A segurança externa influencia diretamente a estabilidade económica, a energia, o comércio e até a coesão interna.
4.Assim, entre o temporal que expõe vulnerabilidades, a violência que se normaliza entre os mais jovens e a reconfiguração geopolítica global, emerge um fio comum: a necessidade de antecipação. Governar é preparar o futuro, não apenas reagir ao presente.
Assim, precisamos de políticas públicas que cruzem ambiente, educação e segurança com visão de longo prazo. E ao mesmo tempo, de uma sociedade que recuse a indiferença, seja perante casas destruídas pelas cheias, relações marcadas pela violência ou guerras que parecem distantes, mas cujas ondas de choque nos atingem.
Terminamos voltando a Pimenta Machado, “o jogo ainda não terminou”. Mas a forma como jogarmos agora determinará o resultado das próximas décadas.
L.M.Cabeço

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