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Catástrofes, Justiça, Proteção Civil, Segurança

Do caos à inveja

I

Caos UrbanoA “onda de solidariedade” de “modelo francês” que se espalhou pela área metropolitana de Lisboa nas últimas noites, para desespero de algumas franjas extremistas,  parece estar a perder “gás”. Esperamos que esta vaga de vandalismo tenha servido de alerta para um conjunto de problemas existentes em determinados bairros, os quais ao longo do tempo têm sido varridos para “debaixo do tapete”, acabando por ser as Forças de Segurança a levar com os estilhaços daí resultantes.

Nestas zonas, ditas urbanas sensíveis ou para outros “bairros sociais”, habitadas maioritariamente por cidadãos comuns, fruto de um conjunto de circunstâncias, têm vindo a proliferar alguns gangues, segundo dados do ano passado seriam mais de 30 e teriam nas suas fileiras cerca de 700 jovens. Uma realidade que considerávamos distante, refugiando-se uns na velha máxima do “país dos brandos costumes”, outros chavão do “país seguro” e mais recentemente na “falsa sensação de insegurança”, e muitos mostrando alguma indiferença por considerarem um assunto de “gente pobre” refugiando-se no albergue do “politicamente correto”.  Aliás, já no Relatório Anual de Segurança Interna-2014 (há 10 anos) se mencionava que estas zonas são “um local privilegiado para a emergência de situações de confronto e resistência à autoridade e de criminalidade, associado a grupos dali originários com uma crescente capacidade organizativa“, tendo a situação vindo a agravar-se. Entretanto, criou-se a Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta (CAIDJCV) que tem como missão produzir recomendações para promover a segurança objetiva e subjetiva, diminuir a delinquência juvenil, a criminalidade violenta e a sua severidade, organismo que apresentou dois relatórios. Neste momento, e em torno da recente onda de vandalismo, André Inácio referiu que se trata de gente que trabalha para o caos

A este propósito, Rui Ramos escreveu um artigo no Observador, onde afirma que “ a primeira vítima dos gangs é sempre a população dos bairros onde os gangs prevalecem. A polícia não é a solução, mas sem a polícia não há soluções”. Como já dissemos, as soluções não passam apenas pela área da segurança interna e da justiça, tem de incluir outras vertentes, dado que na génese do problema estão essencialmente questões de cariz económico-social que urge resolver, para que estes jovens não acabem por desaguar nas cadeias, entrando numa espiral de onde raramente conseguem sair. Tudo isto, voltando a Rui Ramos, sem perder de vista que a segurança é a pedra angular da inclusão social, é o que a torna possível”. Para o efeito, as Forças de Segurança e outras entidades têm que estar e saber estar presentes nestas zonas, no âmbito de um verdadeiro “trabalho de sapa” para conquistar a confiança do cidadão, afastando-se a política do “caveirão”.

Caso contrário, caminharemos a passos largos para o caos e para  aquilo que em França se denomina de “territórios perdidos da República” geridos pelos senhores do crime a seu belo prazer. Indícios dessas intenções não faltam, em 2022, um grupo que se dedicava ao tráfico de  droga foi condenado por ter instalado uma porta blindada num prédio para se protegerem da polícia e os moradores tinham de pedir autorização para entrar e sair.

II

De acordo com o Público, segundo o relatório preliminar da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC) sobre os incêndios que em setembro atingiram o norte e centro do país houve “uma capacidade de resposta robusta e bem coordenada”, isto apesar da situação ter estado 24 horas sem controlo e estarem envolvidas, na fase crucial, 14.673 pessoas a combater os fogos, com 4184 veículos. As fragilidades detetadas resultam de haver “demasiadas entidades a fazer a mesma missão e pouco receptivas à coordenação, comando e controlo da entidade responsável”, apontando as baterias à Unidade de Emergência e Proteção Civil da GNR (UEPS/GNR) e ao ICNF. 

Relativamente à UEPS/GNR, é do conhecimento geral as razões que estiveram na origem da criação do GIPS/GNR (antecessor desta Unidade) e a forma como foi encarada e ainda é por alguns atores do sistema.  Contudo, os militares da GNR que atuam neste domínio têm créditos firmados e uma reconhecida reputação a nível nacional e internacional, mercê do seu excelente desempenho que resulta sobretudo da sua formação, bem como da sua preparação física e psicológica, o que se tenta ofuscar com afirmações deste jaez. Aliás, as referências elogiosas abundam, em 2018, Nuno Rogeiro referiu que o “trabalho ímpar do GIPS da GNR” tem sido decisivo, tal como demonstraram recentemente no incêndio de Monchique, sendo “rápidos, decididos, com espírito de corpo e unidade de comando, os elementos do GIPS fazem uma grande diferença no terreno” [1]. Diferença que se tem feito sentir em inúmeros teatros de operações, porque como se costuma dizer na gíria “os incêndios não se apagam com os olhos”. Temos alguma curiosidade em conhecer o relatório em causa e os relatores, o que dissipará algumas interrogações.

Ao que parece, o facto da situação ter estado 24 horas sem controlo, não obstante os meios que estavam à disposição é um assunto de somenos importância (um verdadeiro oxímoro), disparando-se sobre a UEPS/GNR e propondo-se um reforço da Força Especial de Protecção Civil, “na componente de combate e análise de incêndios” [2]. Todos sabemos porquê, tal como sabemos qual é a última palavra do último canto dos Lusíadas: inveja. 

L.M.Cabeço

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[1] Relativamente ao mesmo evento de triste memória, no Relatório de Avaliação do Incêndio de  Monchique consta que as estratégias de combate e articulação das forças no teatro de operações não foram as mais adequadas e houve falta de estratégia, de empenhamento, de cumprimento das ordens de comando, de pouca motivação para uso de ferramenta manual”.

[2] Estrutura que tal como defendemos em 2018 deveria ter sido integrada na UEPS/GNR.

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