Na madrugada em que a depressão Kristin atravessou Portugal, o vento não foi apenas um fenómeno meteorológico. Foi uma presença. Às quatro da manhã, enquanto tudo o resto se calava, o vento cantou não como o passarinho da canção alentejana, mas como um ataque de artilharia pesada lançado contra casas, ruas e pessoas. Cantou com uma violência nunca antes vista, nem ouvida.
O aviso tinha sido feito. Nos jornais, no Expresso incluído, lia-se que uma tempestade potencialmente destrutiva se aproximava, ainda com incertezas quanto à trajetória. A Proteção Civil enviou um SMS a alertar para vento intenso, até 140 km/h, recomendando atenção e cumprimento das indicações das autoridades.
Perante este cenário, na nossa célula familiar, fizemos o que estava ao nosso alcance: precaução, reforço do que podia ser reforçado, a memória ativa de outros episódios, o ciclone de 1941, que varreu o país, ou o Leslie, em 2018 foram tidos em linha de conta. O problema é que o vento que chegou não parecia caber nesses avisos.
Quando cantou, levantou tudo: telhados, janelas, árvores, contentores, postes. Transformou ruas em campos de batalha, objetos em projéteis, casas em redutos sitiados. Tentávamos segurar portas e janelas como quem defende uma última linha, numa sensação crua de impotência. O barulho era uma cacofonia infernal; ouviam-se objetos a voar, gritos na vizinhança, o medo a circular tão depressa quanto o vento. Depois, quando a fúria passou, veio o alívio por estarmos vivos, seguido da constatação dos estragos incalculáveis.
O cenário repetiu-se de forma quase idêntica em vastas zonas do país, sobretudo no Centro. Leiria tornou-se o epicentro simbólico da tempestade: uma cidade “desligada do mundo”, com freguesias isoladas, telhados arrancados, escolas encerradas, hospitais condicionados, redes elétricas e de comunicações em colapso. Em quinze quilómetros, demoraram-se duas horas a percorrer estradas obstruídas por árvores e cabos caídos. Só foi possível avançar porque cidadãos anónimos, mais uma vez eles, subiram para tratores, pegaram em motosserras, abriram caminho. O Estado ainda não estava lá e demoraria muito a chegar.
Pouco a pouco, as notícias começaram a chegar pela rádio. E com elas a dimensão real da catástrofe: mortos, feridos, centenas de milhares de pessoas sem eletricidade, água ou comunicações, milhares de ocorrências registadas pela Proteção Civil. Mas chegava também outra consciência, talvez mais incómoda: a da ausência de preparação, de antecipação e de pré-posicionamento de meios. Como se nada se tivesse aprendido com a história, nem com o ciclone de 1941, nem com o Leslie, nem com os incêndios, nem com o apagão. Como se dois princípios básicos, prevenção e precaução, continuassem a ser tratados como acessórios.
Ouvir, nessa altura, que a Autoridade Nacional de Proteção Civil anunciava a deslocação da Força Especial de Proteção Civil para Leiria levantava mais perguntas do que respostas. Era só isso? Onde estavam a Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR, as Forças Armadas, os bombeiros de outros distritos, os meios aéreos capazes de dar uma leitura global da situação logo nas primeiras horas? A sensação era a de um sistema ofuscado pela dimensão do evento, incapaz de reconhecer rapidamente as suas próprias insuficiências, algo que vários analistas descreveriam mais tarde como falta de humildade.
As horas passaram e instalou-se um sentimento profundo de abandono. Em muitos locais, durante dias, as populações viveram numa espécie de trevas medievais: sem luz, sem água, sem comunicações. Uma semana depois, ainda há quem aqueça água em panelas, carregue telemóveis em lavandarias, deixe recados em papel à porta do trabalho. Seguiram-se as filas, das telhas, do plástico, do gasóleo, dos pontos Wi-Fi, do supermercado e uma normalidade improvisada, sustentada mais pela resiliência das pessoas do que pela eficácia do sistema.
É verdade que a Kristin foi um fenómeno extremo. Cientificamente, tudo indica que resultou de um “cocktail explosivo” de fatores atmosféricos, incluindo rajadas excecionais associadas a um sting jet. É também verdade que estas tempestades tendem a tornar-se mais frequentes e intensas num contexto de aquecimento global. Mas é precisamente por isso que a excecionalidade já não pode servir de explicação suficiente. Quando o país acorda repetidamente surpreendido, o problema deixa de ser apenas o clima.
O Governo decretou situação de calamidade, mobilizou milhares de operacionais e prometeu apoios avultados. Muito foi feito, dizem os responsáveis, muitas vezes “em invisibilidade”. Ainda assim, como escreveu Ângela Silva no Expresso, o que muitos viram foi “descoordenação, incompetência, descontrolo, falta de comando”. E, como sintetizou Helena Garrido, “da preparação ao apoio às pessoas atingidas pela tempestade, tudo nos mostrou pouca prevenção, organização e ainda menos empatia”.
No meio da destruição, houve um ponto de luz: a solidariedade. Vizinhos, voluntários e empresas chegaram cedo ao terreno e mantiveram-se quando ainda faltavam respostas. A esse esforço juntaram-se depois bombeiros voluntários e profissionais, militares das Forças Armadas e da GNR, polícias e guardas florestais. Essa mobilização coletiva foi decisiva, e lembra que a cooperação entre cidadãos e instituições é um dos pilares mais fortes do país em momentos de crise.
Mas convém não esquecer o essencial: um país não pode depender, de forma recorrente, da boa vontade para suprir falhas que são estruturais.
Quando o vento canta, não escolhe casas nem cidades. A pergunta que a Kristin deixa, agora que outras depressões se aproximam e o risco continua, é simples e perturbadora: e se tivesse sido na tua cidade? A reconstrução que aí vem não é apenas de telhados e postes. É de confiança, de planeamento e de capacidade coletiva para responder melhor antes que, outra vez, às quatro da madrugada, o vento volte a cantar.
Manuel Gomes

Discussão
Ainda sem comentários.