Anúncios
está a ler...
Proteção Civil, Segurança

Cinzas

I

Desta feita a rifa da tragédia associada aos incêndios florestais saiu a Pedrogão Grande e arredores, tendo a catástrofe ceifado mais de 60 vidas e originado, até ao momento, 179 feridos. De acordo com as estatísticas, a nível mundial, tratar-se-á do 11.º incêndio mais mortal desde 1900.Os nossos sentidos pêsames aos familiares das vítimas mortais e os votos de recuperação rápida dos feridos.

II

Como já tive oportunidade de escrever, ano após ano os incêndios, com maior ou menor intensidade vão reduzindo ainc2 cinzas quilómetros quadrados de floresta. Como chegámos a este ponto? Tudo resulta de uma conjugação de vários fatores. Desde logo, a fuga da população rumo ao litoral e ao estrangeiro, deixando casas desocupadas e os terrenos a serem invadidos por matos e silvados, sem se saber quem são os seus proprietários.

Aos matagais e silvados de propriedade incógnita, bem como às alterações climáticas, temos de adicionar uma política florestal que desembocou na invasão massiva dos eucaliptos (o petróleo verde de Mira Amaral), ao que se junta a falta de limpeza junto das residências e de outras infraestruturas nuns casos por incúria e noutros por impossibilidade dos seus proprietários.

Claro que num dia de 40.ºgraus, uma ponta de cigarro atirada de forma negligente da janela de um carro para berma de uma estrada, uma trovoada seca ou a ação de um pirómano mais exaltado podem originar um incêndio catastrófico.

III

Atualmente, devido, sobretudo, à aposta no eucalipto satisfazendo a fome de papel e os interesses associados, tal como afirmam alguns especialistas, grande parte do território nacional, por ter demasiada carga de combustível, converteu-se numa espécie de barril de pólvora.

Mas, a maior parte  destes problemas, ao contrário do que se possa pensar, não são de agora, os reflexos da política florestal implementada a partir dos finais do século XIX começaram a fazer-se sentir na década de 60. Ironicamente, a 28 de agosto de 1961, sensivelmente na mesma zona, mais concretamente em Figueiró dos Vinhos, ocorreu um incêndio que queimou 2500 hectares de pinhal, originou 185 desalojados e duas vítimas mortais.

IV

Perante este quadro, em 1965, os engenheiros florestais Moreira da Silva, Vasco Quintanilha e Ernâni José da Silva elaboraram o relatório Princípios Básicos de Luta contra Incêndios na Floresta Particular Portuguesa, onde defenderam:

  • A criação de zonas de intervenção com dimensão suficiente para a viabilização de medidas de silvicultura e de infraestruturação;

  • A implementação do planeamento florestal e de infraestruturas;

  • O empenho em sistemas de prevenção e que esta e o combate assentassem na profissionalização dos seus agentes.

V

Portanto, nesta, tal como noutras matérias, há muito que a roda está inventada. Contudo, fruto de uma políticaWook.pt - Portugal: O Vermelho e o Negro florestal ziguezagueante, sobretudo a partir de 1980, Portugal transformou-se num imenso eucaliptal mercê da  cedência a um leque diversificado de interesses, sem preocupações de planeamento e ordenamento.

Ao mesmo tempo, os pratos da balança penderam sempre no sentido do combate aos incêndios, dando origem à expressão “indústria do fogo”, a qual, a crer nas afirmações do Secretário de Estado da Administração Interna, dará “dinheiro a muita gente”. Mas esta vertente, não obstante alguns avanços verificados em termos de formação e equipamentos, nunca foi maioritariamente profissionalizada. Quanto a isto, devemos ter em linha de conta o que se passa em Espanha com a Unidade de Emergência Militar, aferir os recursos que temos dispersos (GIPS/GNR, Bombeiros Canarinhos, Regimento de Apoio Militar de Emergência) e caminhar no sentido da criação de uma estrutura profissional robusta, sobretudo em termos de primeira intervenção.

Por seu turno, a prevenção dos incêndios florestais continua a ser o parente pobre, dado que em regra lhe são atribuídos 20% dos recursos financeiros disponíveis, o que é bem patente na tibieza que se tem verificado em redor da criação de equipas de sapadores florestais.

Além disso, não podemos esquecer que:

  • Houve avanços tecnológicos dos quais se pode lançar mão para prevenir e combater este flagelo;

  • As mudanças climáticas são inquestionáveis e temos de saber conviver com elas superando os desafios que elas acarretam;

  • Os meios têm de estar sempre prontos, porque situações de incêndios florestais deixaram de ter mês para eclodir, se é que alguma vez tiveram.

VI

Como facilmente se constata, estamos perante um problema que tem raízes profundas no tempo. A classe política que nos dirige já teve muito tempo para o resolver, só que as decisões políticas acarretam custos em várias dimensões, daí que se normalmente se recorra a paliativos disfarçados de medidas estruturais.

Em relação a esta temática, o atual executivo, na sequência de um conselho de ministros realizado na Lousã decidiu avançar com a aprovação de um conjunto de medidas em três áreas de intervenção: titularidade da propriedade; gestão e ordenamento florestal; e defesa da floresta nas vertentes de prevenção e de combate aos incêndios. Aguardemos para ver se conseguem ir além do quadro paliativo, e como se articularão estas propostas com o que tem vindo a ser feito, em termos de combate e prevenção de incêndios, e de estratégia florestal.

VII

Portanto, a génese da catástrofe de Pedrogão Grande, tal como de outras análogas, ocorreu há muitos anos atrás e ninguém até hoje, pelos mais variados motivos aplicou a terapêutica correta. Agora, para sossegar as almas e colocar um selo branco numa série de vicissitudes, no âmbito de uma verdadeira caça às bruxas com refere Joana Petiz num artigo de opinião do DN, ir-se-ão abrir vários inquéritos prontamente aproveitados para os mais variados fins, e tentar-se-á encontrar um culpado. Uma vez alcançado tal desiderato as “almas voltarão aos corpos” e aguardar-se-á serenamente pela próxima tragédia, muito provavelmente, sem que as medidas estruturais sejam implementadas.

 Pedro Murta Castro

Anúncios

Discussão

Ainda sem comentários.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Anúncios

WOOK

%d bloggers like this: