está a ler...
Catástrofes, Ciências Forenses, Saúde, Segurança

Vulnerabilidades

1 . Depois de muitas discussões e hesitações, parece que finalmente tudo se inclina para o reconhecimento dos benefícios da utilização das máscaras de proteção facial pela generalidade da população para conter a propagação do “maldito vírus”. Neste momento, e tendo em conta a procura destes equipamentos duvido profundamente que haja capacidade de fornecimento para satisfação das necessidades, bem como conhecimento das condições adequadas de utilização por parte da  quase generalidade dos destinatários. Pelo que este reconhecimento deveria ser acompanhado de uma campanha massiva de informação sobre o seu uso correto e a possibilidade de recurso a alternativas eficazes.

2 . Ao mesmo tempo, veio a público que o pessoal que presta serviço no INEM estará a reutilizar equipamento de proteção individual (EPI). Nada que me admire quando nos entram pela casa dentro imagens, provenientes de vários pontos do globo, com médicos, enfermeiros e auxiliares utilizando sacos de plástico das compras e do lixo a substituir o EPI, aumentando o risco para a vida e integridade física de todos os envolvidos.

3 . Tudo isto só vem provar que ninguém estava preparado para enfrentar uma catástrofe desta natureza. Em suma, faltava uma estratégia, um plano, pois pensávamos que tínhamos atingido um tal patamar de desenvolvimento científico que nos tornava imunes a ameaças deste género. Como tal, estas catástrofes apenas poderiam ser vistas nalguma reportagem feita numa distante aldeia africana (a que tirávamos o som ou mudávamos de canal para não ser incomodados), numa sala de cinema ou no conforto de um sofá. Mas não, as ruas desertas em Wuhan, os camiões militares em Bérgamo carregados de caixões, as morgues em Espanha, os camiões frigoríficos a abarrotar de body bags em Nova Iorque, os cadáveres em putrefação na rua em Guayaquil, os óbitos nos nossos lares de idosos, fizeram-nos acordar e constatar que um vírus minúsculo pôs a nu as nossas vulnerabilidades para lidar com este tipo de acontecimentos, sobretudo no plano logístico. Como escreveu Clara Ferreira Alves[1]uma guerra não é [só] ganha com armas, é ganha [também] com a logística[2]”.

4 . Ao menos que esta catástrofe sirva para passar a constar no manual das lições aprendidas (da pior forma).

Sousa dos Santos

____________________________

Adenda: O Centro Europeu de Controlo de Doenças contraria OMS e aconselha uso generalizado de máscaras. Depois de a OMS ter alertado que o uso de máscaras por pessoas saudáveis não é apoiado por provas científicas, o centro aconselhou o uso generalizado em espaços fechados, como supermercados. In Observador

[1] In Pluma Caprichosa, Revista do Expresso, Edição 2475, de 4 de abril de 2020.

[2] Atividade responsável por entregar “o produto certo, na quantidade certa, na condição certa, no local certo, no momento certo, ao custo certo”. O segmento da cadeia de abastecimento responsável pelo planeamento, implementação e controlo efetivo do fluxo e armazenagem de produtos, serviços e informação relacionada, do ponto de origem ao ponto de consumo, de forma a ir de encontro às especificações do cliente.

Discussão

Ainda sem comentários.

Deixe uma Resposta

Please log in using one of these methods to post your comment:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

WOOK

%d bloggers like this: