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Ambiente, Catástrofes, forças de segurança, Proteção Civil, Segurança

Números que levantam questões

Há números que informam. Há números que preocupam. Mas também há números que nos levam a questionar o estado da sociedade em que vivemos.

Portugal, país tido como estável, seguro e previsível, vê-se confrontado com uma sucessão de dados que desafiam qualquer noção de normalidade.

Não são estatísticas isoladas nem episódios desconexos. Observados em conjunto, revelam um país mais exposto, mais vulnerável e, sobretudo, menos preparado para enfrentar riscos que deixaram de ser excecionais para se tornarem estruturais.

Três em cada quatro portugueses afirmam estar preocupados com a desinformação. O dado não surpreende numa época marcada pela proliferação de conteúdos falsos e pela crescente dificuldade em distinguir factos de manipulações. O que impressiona é a dimensão do fenómeno. Uma sociedade que desconfia da informação é uma sociedade mais vulnerável à polarização, à erosão da confiança nas instituições e ao enfraquecimento do próprio debate democrático.

Ao mesmo tempo, Portugal surge entre os países europeus com mais violência contra idosos. O número ganha uma dimensão ainda mais perturbadora quando confrontado com casos recentes, como o dos lares ilegais em Lousada, onde quatro idosas terão morrido à fome. Numa das sociedades mais envelhecidas da Europa, a forma como tratamos os mais velhos é um dos mais exigentes testes à nossa humanidade. E os sinais que recebemos estão longe de ser tranquilizadores.

A vulnerabilidade estende-se ao território e às pessoas. Nos primeiros cinco meses do ano, morreram 57 pessoas por afogamento. Cerca de 648 mil crianças vivem expostas à seca. E o país prepara-se para enfrentar novas ondas de calor extremo, com previsões que apontam para temperaturas superiores a 40 graus em grande parte do território e modelos que admitem valores próximos dos 50 graus em algumas regiões. O que há poucos anos seria considerado excecional aproxima-se perigosamente da normalidade.

Apesar da crescente consciência sobre os efeitos das alterações climáticas, continua a faltar uma estratégia de adaptação à escala do desafio. O mesmo acontece na prevenção dos incêndios: enquanto a GNR reforça a vigilância com drones, metade das áreas florestais de maior risco continua sem cobertura de videovigilância. A tecnologia ajuda, mas não substitui políticas consistentes nem resolve fragilidades estruturais acumuladas ao longo de décadas.

Também no domínio da segurança e da justiça os números exigem uma reflexão serena e rigorosa. Pelo menos 66 pessoas morreram em intervenções policiais nos últimos 25 anos. Cada caso possui circunstâncias próprias, mas todos justificam escrutínio, transparência e uma permanente cultura de responsabilização, indispensáveis à confiança dos cidadãos nas instituições democráticas.

Contudo, uma análise equilibrada desta realidade não deve ignorar aqueles que, diariamente, assumem a responsabilidade de garantir a segurança coletiva. Sempre que estes dados são divulgados, importa igualmente recordar os elementos das Forças de Segurança que perderam a vida ou sofreram graves consequências no exercício das suas funções. A defesa do Estado de Direito requer um duplo compromisso: garantir o escrutínio do uso da força e reconhecer o sacrifício de quem, todos os dias, arrisca a própria segurança para salvaguardar a dos restantes cidadãos.

Entretanto, persistem fenómenos que revelam fragilidades menos visíveis, mas igualmente relevantes. As contrafações nos setores da moda, joalharia e relojoaria provocam perdas estimadas em 420 milhões de euros. As queixas relacionadas com carteiristas aumentam, enquanto o número de detenções diminui. São sinais de uma economia paralela resiliente e de dificuldades persistentes na prevenção e repressão de determinadas formas de criminalidade.

Nem todos os números traduzem fragilidade. Alguns revelam sucesso e capacidade de atração. Em abril, os aeroportos nacionais registaram um novo recorde de 6,6 milhões de passageiros, confirmando a crescente projeção internacional de Portugal. Mas também aqui os números lançam um desafio: o de garantir que o crescimento do turismo e da mobilidade é acompanhado por infraestruturas, serviços e políticas capazes de assegurar a sua sustentabilidade. Ao mesmo tempo, reforçam a necessidade de garantir fronteiras seguras e eficazes. Num mundo marcado por ameaças cada vez mais complexas, o aumento da mobilidade exige mais capacidade de controlo, mais tecnologia e maior coordenação entre as entidades responsáveis pela segurança.

Nenhum destes números, isoladamente, define Portugal. O país continua a ser uma democracia consolidada, uma das sociedades mais seguras do mundo e uma economia que tem demonstrado alguma capacidade de adaptação.

Contudo, a acumulação destes indicadores torna impossível ignorar os sinais de alerta. Estamos perante tendências que exigem resposta. A realidade mudou, e persistir em soluções pensadas para um país que já não existe é um risco que não podemos correr.

L.M.Cabeço

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