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Segurança

Retratos preocupantes

Nos últimos dias houve dois artigos na imprensa que me despertaram particularmente a atenção.

O primeiro deles é relativo a uma alegada festa de casamento (ou numa outra versão uma festa natalícia)[1] que se prolongou durante alguns dias em Alter do Chão (concelho onde risco de contágio por Covid-19 é extremo),incomodando os restantes moradores. A Guarda Nacional Republicana (GNR) fruto de algumas contingências, nomeadamente por falta de recursos humanos no dispositivo local (versão difundida pela Associação dos Profissionais da Guarda), não terá conseguido fazer cessar a infração, tendo os militares sido recebidos de forma agressiva, com alguns dos participantes na festa a pontapearem o veículo e a lançarem um cigarro aceso para dentro deste.

O outro, da autoria de Ana Henriques, no Público, onde se relata a forma como um ex-carteirista montou um esquema de fachada com vários restaurantes em Lisboa para se dedicar ao tráfico de estupefacientes, contando para o efeito com a colaboração de polícias.

Sem querer extinguir o rol de conclusões que daqui se podem extrair, passo a apontar algumas:

  • Um acentuar do desrespeito pelas regras que regulam a vida em sociedade, em suma pelo ordenamento jurídico e pelos agentes encarregues de prevenir ou reprimir a sua violação, por algumas franjas da sociedade. É de salientar que até este momento não tenho conhecimento de que algum dos signatários do artigo de opinião “Ir à raiz: mais políticas sociais, menos violência policial” tenha vindo a terreiro condenar os acontecimentos de Alter do Chão, tal como não o fizeram aquando das agressões ocorridas no interior de um restaurante em Odivelas ou em mais uma invasão de um quartel de bombeiros.
  • Tal como se tem vindo a mencionar, nota-se cada vez mais, a necessidade de adaptação do modelo de policiamento às novas realidades para que se possa lidar com ocorrências como a de Alter do Chão e outras análogas com maior celeridade, eficiência e eficácia, porque a violação sistemática dos deveres por parte de um conjunto de cidadãos não se pode sobrepor aos direitos dos restantes, sob pena de se criar um fosso intransponível passível de um, ainda maior, aproveitamento por parte de determinados “profetas salvadores” que têm emergido das trevas nos últimos tempos.
  • Neste encadeamento, constata-se que não obstante o trabalho meritório desenvolvido nalgumas áreas, algumas das associações representativas dos profissionais ainda continuam amarradas a uma visão em que os problemas da segurança só se resolvem com a constante injeção de recursos humanos. Tal como noutras instituições similares e no mundo laboral em geral esse paradigma alterou-se caminhando-se para uma cada vez maior aposta nas novas tecnologias e equipamentos de vigilância, deteção e alerta que embora não dispensem a presença humana garantem uma poupança significativa em termos de recursos humanos, bem como numa resposta policial dirigida ao problema em questão e ao acontecimento criminal. Mas, devemos ter atenção, que mesmo em moldes diferentes dos atuais, a presença de polícias nas ruas (de proximidade e comunitário) deverá ser sempre mantida, pois só assim poderemos garantir um elevado sentimento de segurança e uma eficiente recolha de informação policial que sustente a atividade operacional de cada uma das forças de segurança.
  • No caso do ex-carteirista lisboeta, é de salientar a porosidade entre a denominada criminalidade de massa e o crime organizado, ou seja, o funcionamento em pleno de um verdadeiro “elevador criminal”.
  • Além disso, foi urdida uma teia para onde foram arrastados elementos de uma força de segurança, ao que consta consumidores de produtos estupefacientes, os quais prestariam diversos “serviços”, chegando inclusive a fornecer fardas para utilização em fins ilícitos.
  • Daqui resulta que existe alguma incapacidade de prevenção destes fenómenos nas forças de segurança, e quando são atalhados no âmbito de um processo criminal há toda uma série de danos irreparáveis que já foram produzidos. Além disso, a tentação para se deixar atrair pelos tentáculos do crime é tanto maior quanto mais baixo for o vencimento. Não se pode deixar de frisar que neste momento a diferença entre o ordenado mínimo e o vencimento de um polícia é cada vez mais diminuta, ficando cerca de 280 euros acima do limiar da pobreza.

Dois relatos que encerram um conjunto de retratos relativos às forças de segurança que não nos podem deixar  de preocupar.

Sousa dos Santos

_______________________________

[1] – GNR alega que festa em Alter do Chão que durou mais de uma semana não era proibida. In CM

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