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Ciências Forenses, Segurança

Forças de segurança – “desfechos trágicos”

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde, suicidam-se anualmente mais de 800.000 pessoas[1]. Em Portugal, na sociedade em geral, de acordo com os últimos dados disponíveis, em 2013 a taxa de incidência do suicídio foi de 10,2 por 100.000 habitantes[2]. Em 2003, Nuno Poiares comparou esta incidência na sociedade em geral e nas forças de segurança, tendo concluído que era ela era um pouco inferior nestas últimas, não sendo por isso que deixa de constituir uma preocupação, antes pelo contrário, nada é mais valioso que a vida humana e a sua perda acarreta, em vários planos, consequências de dimensões imensuráveis.

Nos últimos dias suicidaram-se dois militares da Guarda Nacional Republicana e três agentes da Polícia de Segurança Pública. Estes lamentáveis desfechos têm como traço comum o facto de os cidadãos em apreço pertencerem às forças de segurança. Só em 2015, na GNR e na PSP, ocorreram 13 suicídios.

Susana Ferreira, no âmbito da sua tese de mestrado, estudou esta matéria. Começa por referir que as condutas suicidárias não escolhem profissões, mas reconhece que algumas devido às suas características intrínsecas são mais vulneráveis do que outras, incluindo-se nestas as forças e serviços de segurança.

Para tal, concorrem diversos fatores:

  • Organizacionais
    • A estrutura organizacional, caracterizada por uma burocracia altamente rígida, inflexível e opressiva, que não valoriza a iniciativa, responsabilidade ou resolução de problemas;
    • O papel de polícia e a cultura policial conduzem a uma indubitável re-socialização abrupta (de cidadão vulgar para polícia);
    • Os polícias passam a viver maioritariamente em função do seu papel de polícia, tornando-se incapazes de se comprometerem com outros papéis alternativos e úteis para diminuir os níveis de stress psicológico;
    • O distanciamento prolongado das respectivas famílias;
    • O acesso a uma arma;
    • A opinião maioritariamente desfavorável da sociedade e seus meios de comunicação social relativamente a estes profissionais;
    • A profissão de Polícia é inerentemente stressante, ora pelas suas características organizacionais fundamentalmente restritivas, ora pela natureza do próprio trabalho, fisicamente e emocionalmente perigoso;
    • O stress regular a que um polícia está sujeito poderá conduzi-lo a um estado emocional de tal forma doloroso que a morte é concebida como uma alternativa aceitável.
  • Individuais
    • Os estudos apontam no sentido da maior vulnerabilidade do sexo masculino;
    • Maior incidência nos anos imediatamente subsequentes ao ingresso e na faixa etária mais elevada;
    • Isolamento social (solidão), falta do suporte social que dê apoio em momentos cruciais contribuindo para o bem estar físico e psicológico.
  • Sociodemográficos
    • História de vida;
    • Contexto familiar (alcoolismo, depressão, atitudes suicidárias), maus-tratos infantis, instabilidade, ambiente familiar e relações interpessoais pobres.

Por sua vez, segundo os dados recolhidos por Nuno Poiares:

  • Predomínio do sexo masculino (89%);
  • 67% dos suicidas tinham idades compreendidas entre 23 e 35 anos;
  • 45% viviam sozinhos;
  • 56% foram considerados reservados na convivência;
  • Mau relacionamento familiar em 56%;
  • Abuso de álcool muito frequente (56%);
  • A maioria tinha história de violência (66%);
  • 56% apresentavam patologia psiquiátrica com ausência de tratamento;
  • 22% tinham feito tentativas de suicídio anteriores;
  • 33% tinham histórias de suicídio na família;
  • A maioria apresentava alterações recentes dos hábitos (78%);
  • Uma percentagem elevada tinha mudanças recentes de vida: profissionais (77%), familiares (56%) financeiras (56%) e legais (56%);
  • A maioria tinha antecedentes de perdas recentes por morte (57%);
  • O sentimento predominante nas reações às mudanças recentes era de revolta (56%);
  • 78% apresentavam ideação suicida e verbalizou-a em mais de metade dos casos;
  • 45% fizeram um pedido de ajuda;
  • Todos utilizaram armas de fogo como método de suicídio.

Nuno Poiares afirma que o plano de prevenção do suicídio deve assentar em três eixos:

  • Sensibilização – prevenção
    • Incrementar as avaliações periódicas e aleatórias do abuso de álcool e outras substâncias
    • Divulgar as medidas e valências existentes nas respetivas instituições
    • Reforçar os instrumentos de avaliação dos traços de personalidade na seleção de candidatos e proceder à sua reavaliação no final do curso e durante o primeiro ano ao serviço da instituição
  • Tratamento
    • Linha Telefónica SOS;
    • A otimização e articulação dos recursos existentes, aproveitando os serviços do Serviço Nacional de Saúde;
    • O estabelecimento de procedimentos e normas de referenciação de doentes em risco;
    • Articulação entre o Serviço Social e os Gabinetes Clínicos.
  • Intervenção-contenção em casos de emergência
    • Procedimentos de restrição do uso e porte de armas, quando forem identificados fatores de vulnerabilidade psíquica que indiciem risco de suicídio;
    • Redefinição de funções, com vista a minimizar os fatores de stress, a um maior enquadramento e a uma maior vigilância dos elementos identificados enquanto potenciais suicidas;
    • Apoio psicossocial, através da disponibilização de um conjunto de respostas que possam atenuar/neutralizar alguns dos fatores potenciadores de suicídio.

Também, um artigo escrito recentemente por Sousa dos Santos, a propósito da “fantástica” vida dos polícias, incide, em traços gerais, sobre o conjunto de fatores que podem potenciar o suicídio e que encaixam naqueles que são elencados por Susana Duarte e Nuno Poiares.

Portanto, o quadro sintomático há muito que está definido. Resta saber se a terapêutica que tem vindo a ser adotada será a mais adequada. Acho que as linhas gerais referidas por Nuno Poiares estão corretas e permitiram trilhar rotas numa altura em que se navegava quase ao sabor das marés.

Mas acho que falta referir uma questão. Será que da legislação que tem vindo a ser publicada e que interfere diretamente com os recursos humanos transparece alguma preocupação com a prevenção dos sintomas atrás apontados, sobretudo aqueles que se prendem com a vertente organizacional?

Muito sinceramente acho que não. Arrisco-me mesmo a dizer que se tem vindo a agudizar a tendência para tratar os recursos humanos como máquinas, através quais se tenta extrair o máximo rendimento, com um especial enfoque nos números, na estatística.

Contudo, os números valem o que valem. A pessoa deve prevalecer em detrimento dos algarismos, dos gráficos, ocupando, obrigatoriamente, um lugar central na vida das organizações para que estas possam cumprir as suas atribuições.

Paira no ar a sensação que as pessoas são descartáveis (vão uns e vêm outros), deixou de haver tempo para o relacionamento interpessoal nas suas múltiplas vertentes (tudo se gere em ambiente virtual), para conhecer os problemas pessoais, para encontrar soluções, para evitar desfechos trágicos.

J.M.Ferreira

__________________________

[1]  In Prevención del suicidio

[2] Dados do INE

 

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