A semana de 9 a 15 de fevereiro[1] ficará inscrita como um retrato concentrado das vulnerabilidades de um país, e ao mesmo tempo, de um mundo que parecem ter entrado numa era de risco permanente. Portugal transpôs as fronteiras de um ciclo em que a exceção se tornou regra. Cheias, danos em infraestruturas críticas, desalojados, cortes prolongados de energia e comunicações, são sintomas de um modelo de gestão pública que privilegia a reação em detrimento da prevenção.
Em Coimbra, o rebentamento de um dique na margem direita do Mondego obrigou ao corte da A1 e à retirada de milhares de pessoas. A presença de Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro no terreno simbolizou a dimensão política da crise. Mas o simbolismo não substitui a resposta estrutural. Especialistas lembram que os diques “não protegem infinitamente” e que o ordenamento do território continua a permitir a construção de edifícios em zonas historicamente vulneráveis.
O impacto material é expressivo: mais de 100 mil sinistros participados às seguradoras, dezenas de estradas interditas, cerca de 26 mil clientes ainda sem eletricidade, comunicações fragilizadas e populações isoladas. As Forças Armadas removeram toneladas de detritos e produziram cartografia geoespacial para apoiar o socorro. O Governo criou uma Estrutura de Missão e admite rever o PRR para acomodar danos. Ainda assim, a perceção dominante é a de que o país reage mais do que previne.
A intempérie coincidiu com a turbulência política. A demissão da ministra da Administração Interna, em plena emergência, expôs fragilidades de coordenação, nomeadamente entre a Proteção Civil, as Forças de Segurança, as Forças Armadas e as autarquias. Houve quem falasse em “caos no socorro”. O primeiro-ministro assumiu interinamente a pasta, o que se traduz numa tentativa de estabilização de um ministério crítico.
Em paralelo, a segurança interna ocupou as manchetes. Esfaqueamentos, violência doméstica, abusos de menores, burlas a idosos e redes de tráfico sofisticadas desenharam um quadro inquietante. A apreensão internacional de 1,2 mil milhões de euros em dinheiro falso enviado da China por correio e a referência da Europol a narcossubmarinos em águas portuguesas ilustram a dimensão transnacional do crime organizado. O Parlamento aprovou novas propostas relacionadas com o confisco de bens e com restrições ao acesso de menores a plataformas digitais, reconhecendo que a vulnerabilidade também é tecnológica.
Por outro lado, intensificou-se o escrutínio, com buscas em entidades públicas e investigações por suspeitas de corrupção. O combate é necessário, mas a sucessão de processos mediáticos, arquivamentos e decisões controversas contribui para uma boa dose de erosão da confiança nas instituições.
No plano internacional, o ambiente permanece volátil. A guerra na Ucrânia mantém-se no centro das atenções, com Volodymyr Zelensky a ser pressionado para equacionar calendários eleitorais e garantias de segurança, enquanto a União Europeia aprova novos pacotes financeiros e debate maior autonomia estratégica. A NATO reforça o flanco norte, o Reino Unido aumenta a presença no Atlântico e o Japão aprofunda laços euro-atlânticos. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos enviam sinais contraditórios sobre liderança global, e o Irão oscila entre endurecimento interno e abertura diplomática.
Este encadeamento de crises revela um traço comum: a natureza sistémica do risco. As intempéries testam infraestruturas; a instabilidade geopolítica pressiona economias e alianças; a criminalidade sofisticada explora fragilidades digitais; a erosão de confiança fragiliza a coesão social.
Portugal enfrenta, assim, um momento de escolha. Pode continuar a governar em modo de emergência permanente, reparando danos, substituindo responsáveis, criando estruturas temporárias, ou pode assumir a crise como ponto de inflexão. O país precisa de uma estratégia de resiliência que atravesse ciclos políticos. Manutenção consistente de infraestruturas, revisão séria do ordenamento do território, cultura de prevenção, investimento em literacia cívica e digital, coordenação institucional eficaz e transparência na ação pública. Não são slogans; são condições mínimas de estabilidade.
A exceção tornou-se regra. A maturidade do Estado mede-se agora não apenas na capacidade de resposta imediata, mas na visão estratégica para antecipar o próximo choque. Entre a força da água e a fragilidade das instituições, o verdadeiro teste é transformar vulnerabilidade em resiliência.
Sousa dos Santos
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