Entre 19 e 25 de janeiro de 2026 [1], a atualidade internacional e nacional desenhou um retrato inquietante de um mundo em sobressalto permanente, onde crises antigas se agravam, novas fraturas emergem e a sensação de vulnerabilidade se torna transversal, das grandes potências às comunidades mais expostas.
No plano global, a instabilidade geopolítica foi a constante dominante. A guerra na Ucrânia voltou a intensificar-se, com ataques russos a infraestruturas críticas e negociações de paz envoltas em desconfiança, enquanto Kiev insiste que a “última milha” diplomática continua longe de ser segura. Ao mesmo tempo, o Médio Oriente permanece inflamável: cessar-fogos falhados na Síria, operações militares em Gaza, alertas humanitários no Afeganistão e denúncias de repressão no Irão compõem um mosaico de tensão contínua.
A figura de Donald Trump atravessou a semana como um fator de instabilidade acrescida. As declarações erráticas sobre a Gronelândia, a NATO e a relação com a Europa expuseram fissuras profundas na ordem transatlântica. A cobiça estratégica pelo Ártico, os anúncios de tarifas, a saída dos EUA da OMS e a retórica muscular face ao Irão obrigam a União Europeia a repensar a sua autonomia política, económica e militar, num contexto em que o multilateralismo parece cada vez mais fragilizado.
A Europa viveu também dias de luto e inquietação. Espanha foi marcada por graves acidentes ferroviários com dezenas de mortos, levantando dúvidas sobre segurança e manutenção, enquanto no continente cresce a preocupação com crises estruturais menos visíveis, como a resistência antimicrobiana ou o declínio acelerado dos recursos hídricos, apontado pela ONU como um risco sistémico global.
Em Portugal, a semana foi dominada por uma conjugação de fenómenos extremos e fragilidades internas. O mau tempo, com nevões históricos, cheias na bacia do Tejo e avisos persistentes da Proteção Civil, testou a capacidade de resposta do Estado e trouxe à memória feridas recentes deixadas por incêndios e catástrofes naturais. Ao mesmo tempo, a criminalidade organizada e violenta voltou ao centro do debate público: da megaoperação contra o grupo neonazi 1143, que revelou planos de sequestro e um grau alarmante de radicalização, à maior apreensão de cocaína de sempre em águas portuguesas.
O sistema de justiça e de segurança surge sob forte pressão. Apesar de alguns indicadores apontarem para a descida da violência grave, multiplicam-se casos de abuso, crimes prolongados no tempo, falhas institucionais e polémicas nas Forças de Segurança, levando o Governo a anunciar reformas, reforços e medidas de controlo, como a introdução de bodycams, numa tentativa de recuperar confiança pública.
No fundo, a semana expôs um padrão inquietante: crises climáticas, sociais, políticas e de segurança já não surgem como exceções, mas como camadas sobrepostas de um mesmo tempo histórico. Entre cheias, guerras, extremismos e tensões globais, a sensação de instabilidade deixou de ser episódica para se tornar estrutural. E 2026 começa, assim, com um aviso claro: a segurança, nas suas múltiplas dimensões, tornou-se um dos recursos mais escassos do nosso tempo.
Sousa dos Santos
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