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Ambiente, Catástrofes, Ciências Forenses, Cibersegurança, Defesa, droga, Forças Armadas, forças de segurança, geopolítica, informações, Inteligência Artificial, Investigação Criminal, Justiça, Proteção Civil, Relações Internacionais, Saúde, Segurança

A semana em que tudo foi posto à prova

1.Entre 26 de janeiro e 1 de fevereiro de 2026 [1], Portugal viveu uma das semanas mais densas e reveladoras dos últimos anos, num cruzamento raro entre crise climática, tensão social e instabilidade internacional. O retrato que emerge não é apenas o de uma sucessão de acontecimentos, mas o de um país, e de um mundo, submetido a choques simultâneos que testam os limites da governação, da segurança e da coesão social.

2.A semana começou com um sinal claro de endurecimento do combate ao crime organizado. A apreensão histórica de cocaína num semissubmersível nos Açores, associada a redes com ligações à Venezuela, simbolizou a escala global do narcotráfico que opera a partir do Atlântico. Detenções em série, desmantelamento de estruturas locais e o recurso a “narcolanchas” revelaram uma criminalidade cada vez mais sofisticada, coexistindo com episódios de violência urbana que alimentam um sentimento difuso de insegurança.

3.Mas foi a depressão Kristin que acabou por dominar a agenda e marcar o país. Em poucos dias, o mau tempo transformou-se numa catástrofe de grandes proporções, com especial incidência na Região Centro. Leiria tornou-se o epicentro simbólico de um fenómeno descrito como dantesco: milhares de ocorrências, bairros isolados, redes elétricas e de comunicações destruídas, dezenas de municípios em situação de calamidade e um balanço humano pesado. A dimensão dos prejuízos, considerados superiores aos dos grandes incêndios recentes, expôs fragilidades estruturais antigas, da proteção das infraestruturas à redundância dos sistemas de emergência.

4.A resposta do Estado, embora mobilizadora em meios, foi amplamente questionada quanto à rapidez, coordenação e justiça territorial. Autarcas denunciaram atrasos, populações falaram em abandono e o próprio Presidente da República admitiu que era necessário “mudar profundamente” a forma como o país se prepara para fenómenos extremos que deixaram de ser exceção. A crise revelou também impactos menos visíveis: problemas de saúde mental, economias locais à beira do colapso e uma erosão da confiança que não se resolve apenas com apoios financeiros.

5.Em paralelo, persistiram sinais de fragilidade institucional: milhares de queixas por assédio laboral com poucas sanções, conflitos no INEM, alertas na área da saúde pública e polémicas ambientais, enquanto a solidariedade espontânea da sociedade civil contrastava com as falhas dos sistemas formais.

6.No plano internacional, o contexto não foi menos inquietante. A guerra na Ucrânia intensificou-se em pleno inverno, o Médio Oriente voltou a aquecer, as tensões entre EUA e Irão cresceram e a Europa debateu-se entre autonomia estratégica e dependências antigas. A tecnologia, em particular a inteligência artificial, surgiu como novo campo de disputa regulatória e geopolítica, num mundo cada vez mais instável.

7.No fim da semana, Kristin ficou como mais do que uma tempestade. Tornou-se um teste coletivo à capacidade de aprender, antecipar e decidir. Entre emergências climáticas, crime organizado e um cenário internacional volátil, a pergunta impõe-se: o país está a adaptar-se ao século XXI ou continua a responder com ferramentas do passado? A resposta, como a tempestade mostrou, não pode continuar a ser adiada.

Manuel Ferreira dos Santos

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