A primeira semana de março confirmou uma tendência que vinha a desenhar-se desde o início do ano: a sensação de que o sistema internacional entrou numa fase de turbulência prolongada. Entre a escalada militar no Médio Oriente, a persistência da guerra na Ucrânia e múltiplos sinais de fragilidade institucional e social dentro de vários países europeus, incluindo Portugal, o período entre 2 e 8 de março ficará provavelmente registado como um momento de aceleração da instabilidade global.
O principal foco de tensão da semana foi a rápida escalada militar entre os Estados Unidos, Israel e o Irão. O conflito, iniciado com ataques coordenados contra alvos estratégicos iranianos, entrou numa nova fase após a morte do líder supremo do Irão, Ali Khamenei, num ataque de precisão atribuído a Israel.
A eliminação da figura central do regime iraniano alterou drasticamente o equilíbrio interno em Teerão e abriu um período de incerteza política. A sucessão acabou por recair em Mojtaba Khamenei, filho do antigo líder, mas o novo poder nasce num contexto de guerra aberta e de pressão externa intensa.
Nos dias seguintes, os combates intensificaram-se. Washington afirma ter atingido mais de mil alvos militares e logísticos em território iraniano, enquanto Teerão respondeu com ataques com drones e mísseis a instalações militares e energéticas na região do Golfo. O estratégico estreito de Ormuz, por onde passa uma parte significativa do comércio mundial de petróleo, foi alvo de operações militares e ameaças de bloqueio, alimentando receios de uma crise energética global.
As consequências humanitárias começaram rapidamente a tornar-se visíveis. Estima-se que cerca de 100 mil pessoas tenham abandonado Teerão, enquanto dezenas de milhares foram deslocadas no Líbano e noutras zonas afetadas pelos combates. A guerra está também a revelar o peso crescente da tecnologia no campo de batalha: drones avançados, inteligência artificial e operações cibernéticas surgem como instrumentos centrais tanto nas ofensivas militares como na guerra da informação.
A reação internacional tem sido marcada por divisões. A NATO declarou apoio político às operações contra Teerão, mas vários países europeus mantêm posições divergentes quanto ao grau de envolvimento militar. Alemanha e Reino Unido demonstraram maior alinhamento com Washington, enquanto Espanha recusou a utilização das suas bases para ataques ao Irão.
Ao mesmo tempo, outras potências acompanham atentamente o conflito. A Rússia tem acusado os Estados Unidos e Israel de provocarem o Irão e poderá estar a fornecer apoio estratégico a Teerão, enquanto a China insiste na necessidade de uma solução diplomática e alerta para os riscos de uma escalada que poderia desestabilizar toda a economia global.
A nova guerra no Médio Oriente surge num contexto internacional já profundamente marcado por conflitos armados. Na Ucrânia, a ofensiva russa continua a provocar vítimas civis e a destruir infraestruturas, enquanto Kiev alerta para a escassez de munições caso o conflito se prolongue sem reforço significativo da ajuda internacional.
Noutras regiões do mundo, episódios de violência também sublinham a fragilidade do panorama global. Um ataque no Sudão do Sul causou pelo menos 169 mortos, lembrando que vários conflitos menos mediatizados continuam a provocar crises humanitárias de grande escala.
Perante este cenário, vários líderes europeus começaram a admitir a possibilidade de uma nova fase de militarização do sistema internacional. O presidente francês, Emmanuel Macron, falou mesmo numa possível “era de armas nucleares”, defendendo que a Europa terá de repensar as suas capacidades estratégicas.
Apesar de geograficamente distante dos principais teatros de guerra, Portugal não está imune aos efeitos desta conjuntura. O Governo acompanha com preocupação o impacto potencial da crise energética associada ao estreito de Ormuz, que poderá afetar os preços da energia e as cadeias logísticas globais.
A dimensão estratégica do arquipélago dos Açores voltou também ao centro do debate político. A Base das Lajes, historicamente um ponto fundamental da cooperação militar luso-americana, tornou-se tema de discussão pública após suspeitas de eventual utilização da infraestrutura em operações relacionadas com o conflito no Irão. O Governo negou qualquer participação direta, mas o tema já motivou pedidos de esclarecimento por parte da oposição e pequenos protestos.
Em paralelo, cerca de 500 cidadãos portugueses foram retirados do Médio Oriente nas últimas semanas, num esforço diplomático que ilustra a dimensão concreta das consequências da guerra para o país.
A nível militar, a semana ficou marcada pela confirmação do general Cartaxo Alves como novo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, numa fase particularmente sensível para a política de defesa portuguesa.
Se a instabilidade internacional domina a agenda externa, o panorama interno português continua a revelar desafios persistentes. A violência doméstica permanece um dos problemas sociais mais graves. Desde 2002, 709 mulheres foram assassinadas em Portugal neste contexto, enquanto a APAV prestou assistência a mais de 50 mil mulheres nos últimos quatro anos. Atualmente, mais de mil reclusos cumprem pena por crimes relacionados com este tipo de violência.
Nos últimos dias multiplicaram-se também detenções por crimes violentos, tráfico de droga, pornografia de menores e fraude financeira. As autoridades têm igualmente alertado para novas formas de criminalidade, incluindo burlas digitais sofisticadas e redes internacionais de narcotráfico que utilizam o território português como ponto de entrada de cocaína na Europa.
O sistema judicial enfrenta simultaneamente vários processos mediáticos e investigações complexas, incluindo casos relacionados com corrupção, fraude fiscal e criminalidade organizada. A Procuradoria Europeia abriu dezenas de inquéritos envolvendo Portugal, enquanto redes internacionais de fraude ao IVA continuam sob investigação.
Em paralelo, surgiram novos debates sobre a atuação das forças de segurança, após a detenção de vários agentes da PSP suspeitos de práticas de tortura em esquadras.
A semana foi igualmente marcada por fenómenos meteorológicos adversos e por sinais de vulnerabilidade ambiental. A depressão Regina provocou danos em várias regiões, especialmente no litoral, enquanto as poeiras provenientes do Norte de África agravaram temporariamente a qualidade do ar.
Em resposta aos estragos, iniciativas de solidariedade já reuniram mais de dez milhões de euros em doações destinadas a apoiar as populações afetadas.
O debate sobre segurança de infraestruturas regressou também à memória coletiva com a evocação dos 25 anos da tragédia de Entre-os-Rios, quando a queda da ponte de Hintze Ribeiro provocou a morte de 59 pessoas no rio Douro, um episódio que continua a marcar a reflexão sobre responsabilidade pública e gestão do risco.
O retrato da semana sugere uma realidade cada vez mais fragmentada e incerta. Entre guerras convencionais, conflitos tecnológicos, ameaças energéticas e desafios sociais internos, a ideia de que o mundo atravessa um período de transição estratégica ganhou força.
Para Portugal, como para muitos países europeus, o desafio consiste em gerir simultaneamente riscos externos e fragilidades internas, mantendo a estabilidade institucional num contexto internacional cada vez mais imprevisível. Se a História recente mostrou que crises regionais podem rapidamente transformar-se em fenómenos globais, os acontecimentos desta semana reforçam a perceção de que 2026 poderá vir a ser recordado como um ano de viragem na ordem internacional.
Manuel Ferreira dos Santos

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