Tudo se encaminha para que a instabilidade deixe de ser exceção e se torne a condição permanente do nosso tempo.
1.Há meses que funcionam como sismógrafos. Não criam os abalos, mas registam-nos com uma clareza difícil de ignorar. Janeiro de 2026 foi um desses momentos. Não porque tenha inaugurado crises inéditas, mas porque tornou visível algo mais profundo: a normalização da instabilidade como condição permanente da vida política, social e institucional.
2.O que atravessou o mês, em Portugal e no mundo, não foi apenas um encadeamento de acontecimentos adversos, mas a perceção crescente de que os sistemas deixaram de ter folga. A margem de segurança, nos serviços públicos, na coesão social, na ordem internacional ou na relação com o território, parece cada vez mais curta. E quando tudo funciona no limite, qualquer choque, por mais previsível que seja, transforma-se numa crise.
3.No plano interno, o início do ano voltou a expor fragilidades antigas. A sinistralidade rodoviária elevada durante o período festivo, a persistência da criminalidade violenta, os casos recorrentes de violência doméstica e a pressão constante sobre o Serviço Nacional de Saúde não são fenómenos novos. O que mudou foi a sua acumulação e a dificuldade crescente em responder de forma estrutural. A emergência médica, em particular, tornou-se um símbolo desse esgotamento: atrasos no socorro, falta de meios, profissionais exaustos e um sistema desenhado para resistir a picos ocasionais, não a estados prolongados de tensão.
4.As Forças de Segurança refletem dilemas semelhantes. O envelhecimento dos efetivos, a desmotivação, as reivindicações salariais e as denúncias de abusos e falhas de controlo interno colocam em causa não apenas a eficácia operacional, mas a própria relação de confiança entre o Estado e os cidadãos. Num contexto de insegurança difusa, essa confiança é um ativo essencial, e cada episódio que a fragiliza tem efeitos que vão muito além do caso concreto.
5.Este quadro interno desenrola-se, porém, num cenário internacional particularmente volátil. A captura de Nicolás Maduro por forças especiais dos Estados Unidos marcou simbolicamente o início do ano e funcionou como um sinal de rutura. Mais do que a Venezuela, esteve em causa a erosão de princípios que, durante décadas, sustentaram a ordem internacional: soberania, previsibilidade, primazia do direito. As reações divergentes de aliados e parceiros mostraram um mundo menos capaz de produzir consensos e mais disponível para aceitar a lógica do facto consumado.
6.A guerra na Ucrânia, longe de qualquer desfecho claro, continuou a produzir destruição em larga escala, atingindo infraestruturas civis e energéticas. O Médio Oriente permaneceu preso a ciclos de escalada militar, repressão interna e crises humanitárias. E, como pano de fundo, a crescente rivalidade entre grandes potências, visível no Ártico, no Pacífico e no debate sobre tecnologia e inteligência artificial, reforçou a sensação de que o multilateralismo está a perder centralidade.
7.A figura de Donald Trump, no seu segundo mandato, atravessou o mês como catalisador dessa instabilidade. As declarações sobre a Gronelândia, a NATO, a relação com a Europa ou a saída dos Estados Unidos de organismos internacionais não são apenas episódios retóricos. Funcionam como testes sucessivos à resiliência das alianças e à capacidade europeia de afirmar uma autonomia que continua mais proclamada do que concretizada.
8.A partir da segunda metade de janeiro, a dimensão climática veio juntar-se a este quadro já denso. Catástrofes naturais em várias regiões do mundo e alertas internacionais sobre riscos sistémicos, da resistência antimicrobiana à escassez de água, reforçaram a perceção de um planeta submetido a pressões acumuladas.
9.Em Portugal, a depressão Kristin teve um efeito particularmente revelador. A destruição de infraestruturas e a dimensão dos prejuízos não foram apenas consequência de um fenómeno meteorológico extremo. Expuseram fragilidades estruturais na gestão do território, na proteção de infraestruturas críticas e na preparação para eventos que deixaram de ser excecionais.
10.Ao mesmo tempo, a maior apreensão de cocaína de sempre em águas portuguesas trouxe para o centro do debate a escala global do crime organizado e a sofisticação das redes que operam a partir do Atlântico. O contraste entre a eficácia demonstrada em operações de grande visibilidade e as dificuldades persistentes no funcionamento quotidiano da justiça e da segurança reforçou a sensação de um Estado frequentemente mais reativo do que estratégico.
11.O traço comum de janeiro de 2026 não foi, portanto, a surpresa, mas a confirmação. Confirmação de que as crises já não se sucedem: sobrepõem-se. Confirmação de que os sistemas foram desenhados para um mundo mais estável do que aquele em que hoje operam. E confirmação de que a gestão permanente da urgência tem custos acumulados, económicos, sociais e democráticos que raramente entram nas contas de curto prazo.
12.Talvez o maior risco deste tempo não seja a instabilidade em si, mas a sua banalização. Quando a exceção se torna regra, o perigo é ajustar expectativas para baixo e aceitar como inevitável aquilo que resulta, muitas vezes, de escolhas adiadas. Janeiro de 2026 não ofereceu soluções fáceis. Mas deixou uma pergunta incontornável: como reconstruir capacidade de antecipação, resiliência e confiança num mundo em que a instabilidade deixou de ser um episódio para se tornar o pano de fundo? A resposta a essa pergunta definirá muito mais do que o resto do ano. Definirá, em larga medida, a próxima década.
Pedro Murta Castro

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