Resumo áudio:
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1.Entre 2 e 8 de fevereiro de 2026, Portugal viveu mais do que uma sucessão de depressões atmosféricas. Viveu uma semana de teste severo à sua capacidade de antecipação, resposta e coordenação pública, uma semana que dificilmente será esquecida, não apenas pela violência das tempestades, mas pela forma crua como estas expuseram fragilidades antigas do Estado e da sociedade.
2.As depressões Kristin, Leonardo e Marta transformaram o excecional em rotina. Rios fora do leito nas bacias do Tejo, Mondego, Sado e Guadiana, barragens a libertar volumes históricos, estradas cortadas, linhas ferroviárias suspensas, aldeias isoladas e milhares de pessoas sem eletricidade, água ou comunicações durante dias colocaram o país num estado de exceção prolongado. Algumas localidades ainda permanecem numa autêntica obscuridade medieval. Do Centro ao Alentejo, passando pela Grande Lisboa, repetiu-se o mesmo retrato: casas inundadas, evacuações preventivas, escolas e centros de saúde condicionados, normalidades suspensas durante dias, nalguns casos, mais de uma semana.
3.No terreno, a mobilização foi significativa. Bombeiros, Proteção Civil, Forças de Segurança e Forças Armadas responderam a mais de dez mil ocorrências num curto espaço de tempo, com cerca de 1.600 militares destacados para dezenas de municípios, hospitais a ativarem planos de catástrofe e operações de resgate, alimentação e apoio básico às populações. Ainda assim, a perceção dominante, partilhada por autarcas, especialistas e populações afetadas, foi a de uma resposta tardia e, por vezes, descoordenada. O próprio Governo reconheceu falhas, admitindo que a real dimensão da tempestade Kristin foi compreendida demasiado perto do evento para permitir a distribuição eficaz de meios críticos, como geradores.
4.A comunicação revelou-se um dos elos mais frágeis. Avisos vermelhos que não se traduziram em comportamentos adequados, mensagens genéricas por SMS incapazes de orientar populações em risco real e um sistema que continua a tratar fenómenos extremos como excecionais quando já são recorrentes. Como alertaram vários especialistas ao longo da semana, a população não sabe o que fazer quando tudo falha ao mesmo tempo, e o Estado também nem sempre.
5.Os prejuízos materiais, já estimados em mais de quatro mil milhões de euros, agravaram um problema estrutural: apenas uma pequena parte dos danos está coberta por seguros. Ganhou força o debate sobre a criação de um fundo permanente para catástrofes, eventualmente apoiado por mecanismos de seguro, bem como a necessidade de rever critérios de ordenamento do território, proteção das zonas ribeirinhas, manutenção dos rios e resiliência das redes elétrica e de comunicações. A crise climática deixou de ser um cenário futuro; é o contexto presente.
6.A instabilidade meteorológica cruzou-se ainda com tensões sociais e de segurança. Furtos de combustível a geradores comprometeram o abastecimento de água, surgiram tentativas de especulação de preços e a criminalidade violenta e a violência doméstica continuaram a marcar a atualidade. Forças de Segurança e serviços de emergência operaram sob pressão acrescida, mostrando como as falhas nas respostas básicas do Estado amplificam a insegurança, real ou percecionada, num sistema já sobrecarregado.
7.No plano internacional, o pano de fundo foi igualmente pesado. A guerra na Ucrânia intensificou-se com ataques a infraestruturas civis, enquanto outras regiões, do Médio Oriente à África Austral, enfrentaram conflitos, cheias e crises humanitárias. Dentro e fora de portas, a ideia de simultaneidade de crises tornou-se incontornável.
8.Ainda assim, houve sinais claros de resiliência. A solidariedade local, o esforço incansável de bombeiros, militares, forças de segurança e voluntários e os gestos de coragem que marcaram a semana, incluindo o sacrifício de um bombeiro em serviço, lembraram que a resposta humana continua a ser o principal amortecedor do choque. Mas não pode ser o único.
9.O balanço destes dias é mais do que meteorológico. O mau tempo agravou tudo, mas sobretudo expôs limites estruturais antigos. A semana terminou com o país ainda em alerta, novas tempestades no horizonte e uma pergunta que atravessou todo o noticiário: estaremos preparados para o que aí vem? Os fenómenos extremos não são uma anomalia; são o novo normal. Entre a tempestade e o Estado, o tempo de aprender, planear e investir não é depois do impacto. É agora.
Manuel Ferreira dos Santos

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