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Fevereiro de 2026: um aviso

1.O mês começou sob o impacto das depressões Kristin, Leonardo e Marta. Em poucos dias, rios como o Tejo e o Mondego galgaram margens, barragens libertaram volumes históricos de água, estradas foram cortadas, linhas ferroviárias suspensas e milhares de pessoas ficaram sem eletricidade, água e comunicações. Em Coimbra, o rebentamento de um dique obrigou ao corte da A1 e à retirada de milhares de residentes. Do Centro ao Alentejo, passando pela Grande Lisboa, repetiu-se o mesmo padrão: casas inundadas, escolas encerradas, centros de saúde condicionados, normalidades suspensas durante dias.

2.A mobilização foi significativa. Bombeiros, Proteção Civil, Forças de Segurança e Forças Armadas responderam a milhares de ocorrências; cerca de 1.600 militares foram destacados para dezenas de municípios; hospitais ativaram planos de catástrofe. Ainda assim, a perceção dominante foi a de uma resposta tardia e por vezes descoordenada. O Governo reconheceu falhas na antecipação da dimensão da tempestade Kristin e dificuldades na distribuição atempada de meios críticos, como geradores. A demissão da ministra da Administração Interna, em plena emergência, expôs fragilidades de coordenação política num ministério central para a gestão de crises.

3.Os prejuízos materiais, estimados em mais de quatro mil milhões de euros, revelaram outro problema estrutural: a reduzida cobertura por seguros. Ganhou força o debate sobre a criação de um fundo permanente para catástrofes e sobre a necessidade de rever critérios de ordenamento do território, proteção de zonas ribeirinhas e resiliência das redes elétrica e de comunicações. Especialistas foram claros: os diques não protegem indefinidamente e o país continua a construir em zonas historicamente vulneráveis. A crise climática já não é um cenário projetado; é o contexto em que governamos.

4.A instabilidade meteorológica cruzou-se com tensões sociais e de segurança. Furtos de combustível a geradores comprometeram o abastecimento de água, surgiram tentativas de especulação de preços e as Forças de Segurança operaram sob pressão acrescida. Em paralelo, a criminalidade violenta, a violência doméstica, os abusos de menores e as burlas digitais mantiveram presença constante nas manchetes. A dimensão transnacional do crime organizado tornou-se evidente com referências da Europol a narcossubmarinos em águas portuguesas e com a apreensão internacional de avultadas quantias em dinheiro falso enviado por correio.

5.O Parlamento aprovou novas medidas relacionadas com confisco de bens e restrições ao acesso de menores a plataformas digitais, reconhecendo que a vulnerabilidade é também tecnológica. Ao mesmo tempo, intensificou-se o escrutínio sobre entidades públicas, com buscas e investigações por suspeitas de corrupção. O combate é indispensável, mas a sucessão de processos mediáticos, decisões contraditórias e arquivamentos prolonga a erosão da confiança nas instituições.

6.Na segunda metade do mês, a segurança interna ganhou centralidade acrescida com a entrada em funções de Luís Neves no Ministério da Administração Interna, após liderar a Polícia Judiciária. A nomeação foi lida simultaneamente como reforço técnico e como sinal politicamente sensível quanto à separação entre investigação criminal e tutela governativa. A Inspeção-Geral da Administração Interna classificou como “gravíssimos” alguns casos de racismo nas Forças de Segurança, reforçando a necessidade de rever critérios de admissão e formação. A perceção pública de insegurança alimenta-se não apenas de números, mas da repetição de episódios e da sensação de sobrecarga institucional.

7.O plano digital acrescentou novas camadas de risco: burlas com recurso a inteligência artificial, falsas ofertas de emprego, imagens íntimas manipuladas e ataques informáticos a empresas e instituições europeias demonstraram como a fronteira entre segurança física e virtual se esbate rapidamente. A Comissão Nacional de Proteção de Dados associou-se a alertas internacionais sobre a disseminação de conteúdos íntimos gerados por IA, sublinhando uma vulnerabilidade que combina violência reputacional e desinformação.

8.O pano de fundo internacional agravou a sensação de simultaneidade de crises. A guerra na Ucrânia entrou no quarto ano a 24 de fevereiro. O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, reiterou o apelo ao reforço do apoio europeu, enquanto Vladimir Putin reafirmou a prioridade estratégica do reforço nuclear russo. A União Europeia aprovou novos instrumentos financeiros, apesar de vetos e divisões internas protagonizados pelo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán. A NATO reforçou posicionamentos no flanco norte; Portugal confirmou o envio de militares para a Lituânia; o Atlântico regressou ao centro da equação estratégica.

9.Nos últimos dias do mês, a escalada no Médio Oriente assumiu contornos dramáticos. A ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão culminou com a morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei. O Presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou uma operação de grande escala e prometeu prosseguir ataques até alcançar os objetivos estratégicos definidos por Washington. O risco de perturbação no Estreito de Ormuz fez disparar os preços do petróleo e reacendeu receios de crise energética global. A União Europeia pediu contenção, enquanto os mercados reagiram com volatilidade.

10.Fevereiro terminou, assim, com o país ainda a recuperar de cheias históricas, com a segurança interna sob escrutínio, com a justiça pressionada por atrasos e processos mediáticos, e com o sistema internacional a oscilar entre guerra prolongada na Europa e confronto aberto no Médio Oriente. A simultaneidade tornou-se o traço dominante: crises climáticas, tensões geopolíticas, ameaças híbridas e desgaste institucional entrelaçam-se num mesmo quadro.

11.O mês deixou uma conclusão clara. Governar em modo de emergência permanente não é estratégia; é sintoma. A maturidade do Estado mede-se agora na capacidade de antecipar riscos, investir em prevenção, reforçar infraestruturas e restaurar confiança institucional antes do próximo choque. Fevereiro de 2026 não foi apenas um mês difícil. Foi um aviso: a exceção transformou-se em regra, e a resiliência deixou de ser opção para se tornar condição de sobrevivência política e social.

L.M.Cabeço

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