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A semana – à beira da escalada

A semana de 13 a 19 de julho ficou marcada por uma inquietante convergência de crises. Da confrontação entre os Estados Unidos e o Irão à intensificação da guerra na Ucrânia, passando pelos fenómenos climáticos extremos e pelo desgaste das instituições portuguesas, a atualidade revelou um mundo onde os mecanismos de contenção parecem cada vez mais frágeis.

O foco principal esteve no Médio Oriente. Os sucessivos ataques norte-americanos contra alvos iranianos e as retaliações de Teerão aproximaram as duas potências de uma guerra aberta. A morte de militares dos Estados Unidos e os novos bombardeamentos agravaram uma espiral em que cada resposta passou a justificar a seguinte.

O perigo não se limita, contudo, ao confronto direto. A ameaça de perturbação da navegação no estreito de Ormuz, acompanhada pela possibilidade de cobrança de taxas sobre os navios, e os receios de bloqueio da entrada do Mar Vermelho transformam a crise militar numa ameaça económica global. Uma interrupção significativa destas rotas afetaria o fornecimento energético, os preços dos combustíveis e as cadeias internacionais de abastecimento.

A escalada atingiu também a Jordânia, o Kuwait, o Barém, o Iraque e o golfo de Aden, confirmando a facilidade com que um incidente localizado pode envolver aliados, bases militares e infraestruturas de vários países. Em Gaza, a continuação dos ataques e das mortes civis voltou a recordar que a região acumula conflitos sem que se vislumbre um horizonte político capaz de os conter.

Na Ucrânia, a guerra entrou igualmente numa fase de maior intensidade. A Rússia lançou um dos maiores ataques contra Kiev desde o início da invasão, enquanto as forças ucranianas atingiram alvos militares e logísticos em território russo. A multiplicação de drones, mísseis balísticos, sabotagens tecnológicas e ataques a infraestruturas mostra uma guerra cada vez mais extensa e difícil de delimitar.

Ao mesmo tempo, a saída do ministro ucraniano da Defesa desencadeou protestos e expôs tensões políticas internas. O episódio demonstra que, numa guerra prolongada, a coesão institucional se torna quase tão importante como o sucesso militar. Volodymyr Zelensky procura renovar estruturas sem fragilizar a cadeia de comando nem perder a confiança de uma população submetida a anos de desgaste.

A resposta europeia traduz uma alteração profunda na forma de pensar a segurança. A criação de uma coligação para a defesa contra mísseis balísticos, o acordo para a produção de drones, os novos investimentos em armamento e a preparação de grandes exercícios de defesa mostram que a guerra deixou de ser encarada como um problema exclusivamente ucraniano.

Defender a Europa já não significa apenas reforçar exércitos. Significa proteger redes energéticas, comunicações, satélites, infraestruturas críticas, cadeias industriais e sistemas de informação. Significa também preparar as populações para resistirem a ataques convencionais, campanhas de desinformação, sabotagens e crises prolongadas.

A natureza acrescentou outra dimensão a este retrato de vulnerabilidade. Sismos devastadores na Venezuela, incêndios de grande dimensão na Europa e no Canadá, tempestades, inundações e secas provocaram milhares de mortes e deslocações. As temperaturas extremas foram classificadas pela Organização Mundial da Saúde como um problema urgente de saúde pública, num momento em que um novo fenómeno El Niño ameaça agravar a pressão sobre a agricultura, os serviços de saúde e a proteção civil.

Também as epidemias e as falhas de prevenção permaneceram em destaque. O agravamento do ébola na República Democrática do Congo, os milhões de crianças em risco no Afeganistão e os mais de 13 milhões de menores que não receberam vacinas em 2025 revelam sistemas sanitários incapazes de chegar a uma parte significativa da população mundial.

Em Portugal, a sucessão de incêndios, acidentes rodoviários, crimes violentos e investigações policiais reforçou uma sensação de insegurança quotidiana. A violência doméstica, os homicídios, os abusos sexuais, o tráfico de droga e as burlas informáticas coexistem com acidentes que continuam a causar um número elevado de vítimas, sobretudo no período de maior intensidade das deslocações de verão.

Mas o elemento politicamente mais sensível foi o escrutínio sobre a Polícia Judiciária. O caso do atrelado apreendido e posteriormente encontrado nas instalações de uma empresa ligada a um amigo do diretor nacional da PJ levantou dúvidas sobre decisões internas, relações pessoais e cadeias de responsabilidade. A abertura de inquéritos e a comunicação dos factos ao Ministério Público não impediram que a polémica em torno do ministro da Administração Interna alastrasse ainda mais.

O episódio surgiu precisamente quando a Comissão Europeia assinalava uma deterioração da eficiência do sistema judicial português. Mais do que a soma de casos isolados, o que está em causa é a confiança nas instituições. Polícias, magistrados, funcionários judiciais, profissionais de saúde e responsáveis políticos exercem funções cuja legitimidade depende da capacidade de fiscalizarem e sancionarem os seus próprios membros.

Esta foi, por isso, uma semana dominada por uma mesma pergunta, colocada em diferentes escalas: até onde conseguem resistir os mecanismos criados para impedir que as crises se transformem em catástrofes? No plano internacional, falham os canais diplomáticos e multiplicam-se os ataques. No plano climático e sanitário, os sistemas de prevenção revelam-se insuficientes. Em Portugal, as instituições enfrentam dúvidas sobre transparência, autoridade e capacidade de resposta.

A escalada não é apenas militar. É também política, social, climática e institucional. E o maior risco talvez resida na normalização dessa instabilidade: quando a exceção se torna rotina, o espaço para prevenir a crise seguinte começa inevitavelmente a diminuir.

Sousa dos Santos

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