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A semana – mensagem difícil de ignorar

A semana de 21 a 27 de setembro deixou uma mensagem difícil de ignorar: as ameaças estão a mudar mais depressa do que as fronteiras tradicionais entre criminalidade, segurança interna e defesa. Do narcotráfico à fraude digital, das fragilidades institucionais às ameaças híbridas, Portugal enfrenta hoje riscos mais diversificados, tecnológicos e transnacionais.

O narcotráfico foi talvez o exemplo mais evidente. No Algarve, sucessivas operações voltaram a revelar a dimensão logística das redes que utilizam a costa portuguesa. Em Alvor, a GNR identificou 14 pessoas e apreendeu material associado ao abastecimento de uma embarcação de alta velocidade, incluindo 137 jerricãs de combustível. Dias depois, a Polícia Marítima apreendeu mais 2.600 litros de combustível na Ria Formosa, enquanto outros botes e recipientes foram encontrados escondidos em terra.

Estes episódios mostram que o tráfico já não pode ser observado apenas através das toneladas de droga apreendidas. Por detrás das narcolanchas existe uma estrutura: combustível, embarcações, comunicações, armazenamento, dinheiro e apoio logístico em terra. O verdadeiro desafio está, por isso, tanto na apreensão do produto como na capacidade para atingir a infraestrutura que sustenta o negócio.

A pressão não termina no litoral. A criminalidade patrimonial continua a revelar organização, mobilidade e violência. Houve assaltos armados, investigações relacionadas com ouro e relógios de elevado valor e uma investigação da Polícia Judiciária a um rapto que acabou por expor ligações ao tráfico de droga. Ao mesmo tempo, a GNR e a PSP enfrentaram episódios de agressão durante intervenções policiais, da Lousã à Cova da Moura e a Mem Martins.

Não significa que Portugal esteja perante uma súbita explosão generalizada de violência. Significa, porém, que quem trabalha no terreno é confrontado com ocorrências cada vez mais diversificadas, enquanto algumas organizações criminosas demonstram capacidade para cruzar tráfico, roubo, violência e fraude.

A tecnologia acrescenta outra camada. A Polícia Judiciária alertou para redes online que procuram envolver jovens em comportamentos de automutilação e violência. As chamadas “burlas do amor” demonstram até onde pode chegar uma engenharia social profissionalizada, enquanto a utilização de inteligência artificial para clonagem de voz torna mais fácil convencer uma vítima de que está realmente a falar com alguém que conhece.

A casa deixou, assim, de precisar de uma porta arrombada para ser invadida pelo crime.

Mas esta foi também uma semana de escrutínio das instituições. As buscas realizadas na Polícia Judiciária no âmbito do inquérito relacionado com o Football Leaks colocaram uma das mais importantes instituições de investigação criminal sob uma exposição pública invulgar. Não havia, segundo a informação então divulgada, arguidos constituídos. A presunção de inocência e a prudência são, por isso, indispensáveis. Mas o princípio aplica-se igualmente noutra direção: nenhuma instituição fica acima do escrutínio próprio de um Estado de direito.

Também na GNR, os problemas registados no Centro de Formação de Portalegre, onde formandos necessitaram de assistência médica após a polémica relacionada com uma praga de percevejos, suscitaram questões sobre as condições proporcionadas a quem se prepara para servir o Estado.

É neste ponto que meios, condições de trabalho e confiança pública se encontram. A autoridade das instituições não depende apenas dos poderes que a lei lhes concede. Depende também da forma como funcionam, como explicam as suas decisões e como respondem quando alguma coisa corre mal.

A mesma exigência atravessa a proteção civil. Mais de 300 bombeiros voluntários foram feridos em serviço durante o ano e, durante esta semana, uma bombeira de 24 anos morreu no combate a um incêndio em Resende. A repetição destes números recorda que os incêndios não são apenas hectares queimados: são também desgaste operacional, risco humano e comunidades permanentemente expostas.

Por fim, a fronteira externa aproximou-se novamente da segurança quotidiana. Serviços europeus continuaram a alertar para sabotagem, ciberataques e outras formas de guerra híbrida atribuídas à Rússia. A Dinamarca chamou a atenção para potenciais ações de sabotagem e os movimentos no Báltico voltaram a colocar os cabos submarinos, essenciais às comunicações, dados e energia, no centro das preocupações estratégicas europeias.

O crime é móvel, a tecnologia não conhece fronteiras e as ameaças externas podem produzir consequências imediatas dentro de casa. A resposta pública terá de acompanhar essa transformação, com instituições escrutináveis, capacidade operacional e uma visão integrada das ameaças.

L.M.Cabeço

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