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Press Center 06-10-2026

06-10-2026

Em Portugal, a violência continua a manifestar-se na sua forma mais imediata. Um homicídio alegadamente provocado por uma disputa de terrenos em Loures, agressões em espaços públicos, crimes sexuais sob investigação e confrontos que chegam aos tribunais recordam que a segurança começa, antes de tudo, na proteção concreta das pessoas. Não são fenómenos necessariamente relacionados entre si, mas o seu conjunto traduz uma pressão permanente sobre polícias, tribunais, serviços de emergência e estruturas sociais.

Também a criminalidade patrimonial permanece relevante. Mais de 35 casas terão sido assaltadas por dia em 2025, enquanto um tribunal condenou 13 arguidos num processo relacionado com uma burla de 14 milhões de euros a entidades bancárias. Paralelamente, as burlas digitais do tipo “olá mãe, olá pai” chegam a julgamento, revelando como a criminalidade económica se adapta rapidamente às novas formas de comunicação.

É precisamente essa capacidade de adaptação que deve merecer particular atenção.

A criminalidade organizada contemporânea já não depende exclusivamente de estruturas rígidas ou hierarquizadas. Recruta jovens em meios vulneráveis, explora dificuldades económicas, utiliza plataformas digitais e beneficia da circulação internacional de pessoas, capitais e mercadorias. O alerta de que o aumento do custo de vida pode favorecer o recrutamento criminal não deve ser tratado como uma relação automática entre pobreza e crime. Deve, porém, ser encarado como um sinal de risco social: organizações criminosas sabem procurar mão de obra onde encontram exclusão, falta de oportunidades e expectativas reduzidas.

O narcotráfico marítimo volta igualmente a surgir, ainda que de forma indireta, através dos mais de 100 mil litros de combustível apreendidos este ano e associados às operações desenvolvidas no mar. Combustível, embarcações rápidas, comunicações por satélite e redes logísticas tornaram-se componentes de uma infraestrutura criminosa que exige capacidade de vigilância permanente e cooperação entre autoridades.

Há, simultaneamente, problemas dentro das próprias estruturas do Estado. A greve dos técnicos dos serviços prisionais e as notícias de fragilização da vigilância eletrónica mostram como a segurança pública não termina com uma detenção ou uma condenação. O sistema prisional, a reinserção e a fiscalização das medidas judiciais são partes do mesmo circuito. Quando um destes elos perde capacidade operacional, a pressão acaba inevitavelmente por transferir-se para os restantes.

O desgaste humano dos profissionais de segurança constitui outro elemento que não pode ser ignorado. O debate sobre o esgotamento dos polícias é particularmente importante porque instituições permanentemente sujeitas a pressão operacional não podem depender apenas da resistência individual dos seus profissionais. Formação, condições de trabalho, acompanhamento psicológico, liderança e efetivos adequados são componentes de segurança pública tão importantes como equipamentos ou legislação.

Na Europa, a guerra da Ucrânia continua a transformar o próprio conceito de conflito. O ataque a um petroleiro perto de Sochi, navios comerciais atingidos por drones e a instalação de sistemas Patriot polacos junto à fronteira ucraniana mostram uma guerra onde território, espaço aéreo, infraestruturas civis e cadeias logísticas se misturam continuamente.

Os drones são talvez o símbolo mais visível desta transformação. Baratos quando comparados com muitas plataformas militares tradicionais, difíceis de detetar em determinados cenários e capazes de atingir infraestruturas críticas a grande distância, tornaram-se instrumentos militares, de sabotagem e de intimidação estratégica. A guerra moderna faz-se agora simultaneamente no terreno, no ar, no ciberespaço, nas comunicações, nas redes energéticas e na perceção pública.

É por isso que as interrogações sobre a preparação europeia perante a guerra híbrida são particularmente relevantes. Espionagem, ciberataques contra instituições financeiras, sabotagem, desinformação e operações clandestinas podem produzir efeitos políticos e económicos significativos sem desencadear formalmente uma guerra convencional.

A detenção de um antigo responsável dos serviços secretos alemães por suspeitas de espionagem e traição ao Estado acrescenta ainda uma dimensão inquietante: algumas das vulnerabilidades mais graves podem localizar-se dentro das próprias instituições encarregadas de proteger o Estado.

Ao mesmo tempo, outros acontecimentos recordam que segurança e saúde pública também se podem cruzar. A morte de uma técnica num laboratório russo dedicado ao estudo da peste provocou preocupação internacional, embora a Organização Mundial da Saúde tenha considerado muito baixo o risco para a Europa. A prudência é essencial: numa era marcada pela rapidez da informação e pela memória recente das pandemias, acontecimentos desta natureza podem gerar simultaneamente riscos sanitários e ondas de desinformação.

Também a decisão do Infarmed de proibir temporariamente a exportação de dezenas de medicamentos, incluindo fármacos oncológicos, analgésicos e antidepressivos, mostra outra dimensão da segurança contemporânea: garantir medicamentos essenciais é igualmente uma questão de resiliência nacional.

É esta talvez a principal conclusão do dia. Já não existem compartimentos estanques na segurança.

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J.M.Ferreira

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