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Press Center 03-10-2026

03-10-2026

No plano interno, o Algarve volta a surgir como um dos principais pontos de pressão. A GNR apreendeu em Loulé cerca de 330 quilos de cocaína, quantidade correspondente a aproximadamente 1,5 milhões de doses. No mesmo dia, foram ainda apreendidos no Algarve uma lancha de borracha e 3.600 litros de combustível.

Os dois episódios, considerados em conjunto, merecem atenção. Já não estamos apenas perante droga encontrada ocasionalmente num determinado território. A acumulação de apreensões de estupefacientes, embarcações, combustível e estruturas de apoio aponta para uma realidade mais complexa: a existência de uma logística organizada que aproveita a costa portuguesa e a proximidade das grandes rotas atlânticas.

Portugal não é apenas um destino. É também território de entrada, trânsito, armazenamento e redistribuição. O fenómeno aparece acompanhado por outra dimensão do crime transnacional. A PJ deteve três mulheres que transportavam 11 quilos de cocaína no aeroporto de Lisboa, enquanto uma investigação a um grupo que recorreria a testas-de-ferro no Brasil aponta para o branqueamento de 4,3 milhões de euros em Portugal.

Droga e dinheiro caminham juntos. Combater o narcotráfico apenas através das apreensões significa atingir a mercadoria sem necessariamente atingir a estrutura económica que sustenta o negócio. Seguir o dinheiro, identificar património, redes societárias e circuitos financeiros é hoje tão importante como intercetar uma embarcação ou apreender cocaína.

Mas a pressão sobre a segurança não termina no crime organizado. A criminalidade quotidiana continua a produzir sinais preocupantes: um homem morreu depois de ser agredido com uma pá em Loures; ocorreram disparos numa discussão em Odivelas; registaram-se assaltos em Lisboa; e investigações policiais continuam a revelar tráfico de droga em diferentes pontos do país.

Também nas escolas surgem motivos para inquietação. Em apenas seis meses, a GNR deteve 12 jovens por situações relacionadas com tráfico de droga ou ameaças a funcionários, num contexto em que GNR e PSP alertam para um aumento da delinquência juvenil e da presença de armas no meio escolar.

Seria excessivo transformar estes casos numa narrativa de insegurança generalizada. Seria igualmente imprudente tratá-los como acontecimentos isolados sem relação entre si. A segurança pública exige precisamente a capacidade de distinguir perceção de tendência, mas também de reconhecer uma tendência quando os sinais começam a acumular-se.

Há ainda uma frente menos visível. Segundo um alerta da Microsoft referido neste Press Center, Portugal surge entre os mercados europeus mais afetados por cibercrime. Ao mesmo tempo, o desmantelamento de um grupo internacional de hackers alegadamente liderado por um jovem de apenas 16 anos demonstra até que ponto idade, fronteiras e distância geográfica perderam importância na criminalidade digital.

Um adolescente com um computador pode hoje participar numa rede com alcance internacional. O território do crime deixou de coincidir com o território físico do Estado.

E é precisamente aqui que segurança interna e segurança internacional começam a tocar-se. Na Europa, o aeroporto de Vilnius chegou a ser encerrado após um alerta relacionado com um drone suspeito. A Polónia prepara legislação destinada a aumentar a preparação da população para uma eventual guerra. Em Manchester, dois homens foram acusados de prepararem um atentado contra a comunidade judaica. Em Kiev, a Rússia voltou a atacar infraestruturas essenciais, atingindo uma ponte depois de anteriores ataques sobre outras ligações estratégicas.

Não são fenómenos idênticos. Mas revelam uma mesma transformação: a fronteira entre guerra, terrorismo, sabotagem, ciberataque, espionagem e criminalidade organizada tornou-se mais difusa.

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J.M.Ferreira

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