A semana de 16 a 22 de fevereiro confirmou uma sensação persistente: Portugal atravessa um ciclo de tensão interna num contexto internacional marcado por fraturas profundas. Entre o rescaldo da intempérie, as questões de segurança e justiça e o agravamento das incertezas geopolíticas, o país move-se numa encruzilhada onde as vulnerabilidades estruturais se tornaram visíveis.
O impacto das tempestades revelou fragilidades antigas. Estradas cortadas, linhas ferroviárias interrompidas, milhares de clientes sem eletricidade e prejuízos que podem ascender a vários milhares de milhões de euros expõem um território vulnerável a fenómenos extremos. As cheias no Mondego e no Tejo reacenderam debates sobre planeamento e ordenamento, enquanto autarquias contabilizam danos avultados na agricultura, habitação e infraestruturas. A frase que ecoou, “o maior erro foi não termos construído bem”, sintetiza um diagnóstico que já não é apenas técnico, mas político.
Ao mesmo tempo, a segurança interna assumiu centralidade. Centenas de detenções numa única semana, apreensões significativas de droga, aumento expressivo de denúncias de cibercrime e casos de violência grave, da violência doméstica aos abusos sexuais de menores, compõem um retrato exigente. A nova liderança no Ministério da Administração Interna inicia funções sob forte expectativa, pressionada por constrangimentos estruturais nas Forças de Segurança e por uma opinião pública sensível à perceção de desordem.
A dimensão digital acrescenta novas camadas de risco: burlas com recurso a inteligência artificial, fraudes associadas a falsas ofertas de emprego, desafios virais perigosos nas redes sociais e ataques informáticos a empresas e instituições europeias demonstram que a fronteira entre segurança física e virtual se dilui rapidamente. A Europa, por seu turno, intensifica a pressão sobre plataformas digitais e grandes operadores do comércio eletrónico, numa tentativa de conciliar liberdade de expressão e proteção dos cidadãos.
Por outro lado, a guerra na Ucrânia permanece num impasse tenso. Negociações descritas como “difíceis” coexistem com anúncios de reposicionamento militar, reforço de meios da NATO e ameaças nucleares junto à fronteira da União Europeia. A Finlândia prepara-se para acolher uma força avançada no Ártico; Portugal enviará fuzileiros para a Lituânia. O Atlântico regressa ao centro da equação estratégica, com monitorização de navios russos e movimentações na Base das Lajes.
No Médio Oriente, as negociações entre Estados Unidos e Irão oscilam entre a retórica de confronto e a possibilidade de um “amplo acordo”, enquanto Gaza continua a ser palco de tensão humanitária e militar. O anúncio de novos financiamentos, as acusações de anexação na Cisjordânia e os receios de limpeza étnica alimentam um clima de instabilidade que extravasa a região. Ao mesmo tempo, multiplicam-se sinais de recomposição global: exercícios conjuntos entre Moscovo, Teerão e Pyongyang, debates europeus sobre autonomia estratégica e iniciativas para desenvolver capacidades industriais de defesa.
A semana de 16 a 22 de fevereiro deixa, assim, um retrato claro: a água pode baixar e as estradas reabrir, mas os desafios estruturais persistem. Entre crises climáticas, ameaças híbridas e tensões geopolíticas, Portugal e a Europa enfrentam um tempo em que a gestão da emergência já não basta. O que está em causa é a capacidade de antecipar riscos, reforçar instituições e redefinir prioridades num mundo cada vez menos previsível.
Manuel Ferreira dos Santos

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