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A semana – crises sobrepostas

Na semana de 15 a 21 de junho, a sucessão de acontecimentos desenhou um retrato inquietante de um mundo exposto a vulnerabilidades múltiplas e interdependentes, onde as crises deixaram de surgir isoladamente para se alimentarem umas às outras.

No plano internacional, a semana ficou marcada por um raro momento de distensão entre Washington e Teerão. O entendimento alcançado entre os Estados Unidos e o Irão, assente na diluição de urânio enriquecido em troca do levantamento gradual de sanções, proporcionou um alívio temporário aos mercados energéticos e financeiros. A descida do preço do petróleo e a recuperação das bolsas europeias demonstraram a importância sistémica do Golfo Pérsico para a economia mundial.

Contudo, a fragilidade do acordo rapidamente se tornou evidente. Israel manteve operações militares contra posições do Hezbollah no Líbano, centenas de navios continuaram retidos no Estreito de Ormuz à espera de garantias de segurança, e as ameaças recíprocas entre Teerão e Washington recordaram que a possibilidade de uma escalada regional permanece aberta.

Também a guerra na Ucrânia prosseguiu sem qualquer perspetiva credível de resolução política. Kiev insistiu na necessidade de travar a chamada «frota fantasma» russa, utilizada para contornar sanções internacionais, enquanto a Europa continua a debater o seu próprio posicionamento estratégico. O adiamento da nova Estratégia de Segurança da União Europeia para depois da próxima cimeira da NATO é sintomático de um continente que continua frequentemente mais preparado para responder a crises do que para as antecipar.

Esta dificuldade em antecipar riscos encontra paralelos evidentes em Portugal.

A semana foi particularmente dura no plano social e humano. A morte de crianças em circunstâncias dramáticas,  uma atropelada em Vila Verde após ser deixada pelo pai na paragem do autocarro, outra alegadamente asfixiada pela madrasta em Valpaços, uma terceira vítima de um contexto familiar marcado por sinais de perigo em Santarém, abalou profundamente a opinião pública.

Em todos estes casos emergiu uma questão recorrente: quantos sinais de alerta permanecem invisíveis ou perdem eficácia num sistema onde escolas, serviços sociais, estruturas de saúde e mecanismos de proteção operam frequentemente sob pressão permanente?

Também a violência sobre grupos particularmente vulneráveis continuou a ocupar a atualidade. Casos de abusos sexuais sobre menores, agressões contra idosos, violência doméstica mortal e episódios de exploração humana sucederam-se ao longo da semana, revelando problemas estruturais que transcendem a mera dimensão criminal e remetem para fragilidades sociais mais profundas.

Entretanto, a criminalidade organizada demonstra uma capacidade crescente de adaptação.

A investigação relacionada com uma rede chinesa suspeita de branquear dezenas de milhões de euros em Portugal evidenciou a sofisticação do crime económico contemporâneo, caracterizado pela mobilidade internacional de capitais, pela utilização de empresas de fachada e pela opacidade das estruturas financeiras.

Ao mesmo tempo, burlas executadas por falsos agentes policiais, redes de tráfico de droga, contrafação alimentada pelo fenómeno desportivo global e esquemas fraudulentos potenciados por ferramentas de inteligência artificial ilustram a forma como o crime acompanha rapidamente a evolução tecnológica e a globalização económica.

Mas talvez nenhum tema tenha suscitado maior inquietação institucional do que a investigação ao Movimento Armilar Lusitano.

As suspeitas da existência de planos violentos dirigidos contra responsáveis políticos, jornalistas, académicos e figuras públicas, bem como alegadas ligações a elementos das forças de segurança, constituem um dos mais sérios alertas dos últimos anos sobre processos de radicalização política em Portugal.

Quando o extremismo abandona o espaço marginal das redes sociais para discutir atentados, elaborar listas de alvos e ensaiar estratégias operacionais, deixa de ser um fenómeno de nicho para se transformar numa ameaça direta ao funcionamento democrático.

Paralelamente, a condenação com pena suspensa do agente da PSP envolvido no caso Odair Moniz reacendeu debates antigos sobre uso da força, escrutínio das instituições policiais, confiança na justiça e desigualdades percecionadas no acesso à tutela jurisdicional.

A intensidade das manifestações públicas que se seguiram demonstra que uma parte significativa da sociedade continua a olhar para determinadas decisões judiciais com reservas, evidenciando a persistência de fraturas sociais e territoriais que exigem respostas mais profundas do que a mera gestão de episódios mediáticos.

Também a proteção civil parece ter entrado numa nova fase.

As previsões meteorológicas apontaram para temperaturas excecionalmente elevadas, em alguns cenários próximas dos 50 graus Celsius. O reforço dos centros de vigilância, a mobilização das Forças Armadas, os avisos sobre o risco extremo de incêndios e a preocupação crescente com as consequências de fenómenos associados ao El Niño mostram que as alterações climáticas deixaram definitivamente de pertencer ao domínio das projeções futuras.

Transformaram-se numa variável permanente de governação.

Portugal enfrenta hoje verões em estado de pré-emergência quase contínua, obrigando à adaptação das infraestruturas, dos serviços de saúde, dos dispositivos de proteção civil e das próprias habitações. Quatro décadas após as tragédias do Caramulo e de Águeda, continuam a repetir-se diagnósticos conhecidos: floresta desordenada, acumulação de biomassa, ocupação dispersa do território e uma persistente cultura de reação posterior ao desastre.

Ao longo da semana, as forças de segurança e os serviços de emergência procuraram responder a uma pressão constante. Operações de fiscalização rodoviária identificaram centenas de condutores sob o efeito do álcool, milhares de agentes foram mobilizados para garantir a realização dos exames nacionais e multiplicaram-se intervenções de socorro e salvamento.

São esforços frequentemente invisíveis, mas indispensáveis para assegurar níveis mínimos de normalidade numa sociedade exposta a ameaças cada vez mais diversas.

A semana de 15 a 21 de junho deixou, assim, uma conclusão difícil de ignorar: as fronteiras entre segurança externa, segurança interna, proteção social, saúde pública, justiça e ambiente tornaram-se progressivamente mais ténues.

A guerra influencia os preços da energia; as alterações climáticas ampliam desigualdades; a tecnologia cria simultaneamente oportunidades e novas formas de criminalidade; a erosão da confiança fragiliza instituições; e a incapacidade de antecipar riscos transforma acontecimentos previsíveis em tragédias recorrentes.

Num tempo marcado pela acumulação de incertezas, talvez a verdadeira medida da resiliência das sociedades democráticas não resida apenas na capacidade de responder às crises quando estas irrompem, mas sobretudo na disposição para aprender com elas antes que se repitam.

Manuel Ferreira dos Santos

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