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Julho – interdependência

Julho começou com Portugal debaixo de temperaturas extremas e terminou com dezenas de milhares de pessoas concentradas em Ceuta. Entre estes dois acontecimentos sucederam-se incêndios, operações contra o narcotráfico, crimes violentos, polémicas institucionais, ataques militares, catástrofes naturais e novas ameaças às rotas energéticas internacionais.Capa do artigo História Mundial do Mal

À primeira vista, são acontecimentos muito diferentes. Na realidade, mostram como a segurança contemporânea deixou de caber nos compartimentos tradicionais.

Os incêndios foram provavelmente o exemplo mais evidente. Da Guarda a Valpaços, de Penafiel a Vouzela, milhares de hectares foram consumidos pelas chamas, populações tiveram de ser retiradas, casas e explorações agrícolas foram destruídas e centenas de operacionais chegaram a combater simultaneamente vários fogos.

E Portugal esteve longe de ser exceção. Espanha, França, Grécia e Itália enfrentaram igualmente incêndios de grande intensidade, vagas de calor e evacuações em larga escala.

As alterações climáticas estão a tornar estes fenómenos mais rápidos, violentos e imprevisíveis. Mas explicá-los exclusivamente pelo clima seria demasiado simples. O abandono rural, a acumulação de combustível, a insuficiente gestão da floresta e o incumprimento de metas de prevenção continuam a criar condições para que uma ignição se transforme rapidamente numa catástrofe.

A investigação criminal revelou também uma dimensão preocupante do problema. Só em sete meses, a GNR deteve 155 suspeitos de atearem incêndios. Cinco dos onze maiores fogos terão tido origem criminosa.

Investigar é indispensável. Mas a prevenção vem antes. Não basta descobrir quem acendeu o fósforo quando o território continua preparado para arder.

Julho mostrou igualmente que a criminalidade organizada continua a adaptar-se com enorme rapidez às novas oportunidades. Houve apreensões de grandes quantidades de cocaína, droga transportada em aeroportos, escondida em navios ou introduzida através de rotas marítimas, redes de tráfico de pessoas, exploração laboral, falsificação documental, burlas informáticas e utilização de novas tecnologias para cometer ou esconder crimes.

A extensa fachada marítima portuguesa, os aeroportos internacionais e a integração do país nas redes de circulação europeias representam oportunidades económicas, mas também vulnerabilidades que as organizações criminosas sabem explorar.

O mês terminou precisamente com outra manifestação dessa pressão sobre as fronteiras.

Ceuta passou, em poucos dias, de uma questão localizada no Norte de África para um problema de dimensão europeia. Dezenas de milhares de pessoas concentraram-se junto à fronteira, registaram-se mortes e vários Estados começaram a reforçar ou rever os seus controlos.

A resposta não pode reduzir-se à habitual oposição entre segurança e direitos humanos. Um Estado democrático deve conseguir proteger as suas fronteiras, salvar vidas e combater as organizações que exploram pessoas vulneráveis.

Ceuta mostrou sobretudo a velocidade com que estes fenómenos podem desenvolver-se. Num mundo onde as redes sociais conseguem mobilizar milhares de pessoas em poucas horas, o controlo fronteiriço deixou de depender apenas de barreiras físicas e patrulhas. Exige informação, inteligência, cooperação internacional e capacidade de antecipação.

Também a confiança nas instituições portuguesas sofreu desgaste ao longo do mês.

As sucessivas notícias relacionadas com o denominado caso do atrelado, a Polícia Judiciária e o seu diretor nacional alimentaram dúvidas sobre procedimentos, responsabilidades e mecanismos internos de controlo. O problema ultrapassou inevitavelmente as pessoas envolvidas.

Quando estão em causa instituições com poderes particularmente sensíveis, a confiança pública exige explicações claras, documentação, transparência e independência. A autoridade institucional não resulta apenas da lei. Resulta igualmente da convicção dos cidadãos de que as regras são aplicadas de forma igual a quem investiga e a quem é investigado.

Na Ucrânia prosseguiram os ataques contra cidades, infraestruturas energéticas, refinarias e alvos militares. Drones, comunicações por satélite, ciberataques e operações de longo alcance confirmaram que a guerra contemporânea já não se trava exclusivamente no campo de batalha.

No Médio Oriente, a confrontação entre os Estados Unidos e o Irão aproximou novamente a região de um conflito mais amplo. O Estreito de Ormuz voltou a ocupar uma posição central, recordando que uma crise militar regional pode rapidamente transformar-se numa crise energética mundial.

Uma perturbação prolongada das rotas marítimas teria consequências nos preços da energia, nas cadeias de abastecimento, no comércio e, inevitavelmente, na economia europeia.

É precisamente esta interdependência que melhor define o mês.

Um incêndio já não é apenas um problema florestal. Pode interromper transportes, afetar hospitais, destruir infraestruturas e obrigar a deslocar populações. Uma crise migratória não é apenas uma questão de fronteiras. Pode rapidamente transformar-se num problema humanitário, político, policial e diplomático. Uma guerra regional pode atingir o abastecimento energético de países situados a milhares de quilómetros.

Uma falha institucional aparentemente limitada pode transformar-se num problema de confiança pública.

Tendo em conta este pano de fundo não poderíamos deixar de recomendar a leitura de uma obra intitulada História Mundial do Mal, da autoria de Fabrice D’Almeida.  Mais do que enumerar crimes e atrocidades, o autor procura compreender a psicologia dos seus protagonistas e enquadrar os seus comportamentos nos valores, conflitos e circunstâncias das respetivas épocas.

O resultado é uma reflexão sobre o poder, a crueldade, a manipulação e a violência, mas também sobre a própria natureza humana e sobre a forma como determinadas personalidades conseguiram alterar dramaticamente o curso da História.

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Sousa dos Santos

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