A notícia de que a CIA terá alertado para a possibilidade de uma ação russa com drones contra Espanha, França ou Itália deve ser lida com prudência. A informação divulgada pelo El Mundo assenta numa fonte anónima próxima do Ministério da Defesa da Lituânia, não numa confirmação pública da própria agência norte-americana. A ameaça não deve ser desvalorizada, mas uma informação por confirmar também não pode ser apresentada como um ataque iminente.
A avaliação divulgada esta quinta-feira pelos serviços de informações militares da Dinamarca confere, porém, maior consistência aos alertas europeus. O risco de ações militares russas limitadas contra países da NATO é considerado baixo, mas crescente. Uma invasão convencional continua a ser tida como improvável, embora já não possa ser inteiramente excluída. Mais preocupante, pela sua natureza e potencial de perturbação, é a previsão de uma intensificação das operações híbridas, incluindo sabotagem e ciberataques destrutivos contra infraestruturas essenciais.
É neste contexto que ganha significado a afirmação de Henrique Gouveia e Melo de que a confrontação com a Rússia já ultrapassou os limites da guerra convencional. Pode discutir-se a expressão «já estamos em guerra»; é mais difícil ignorar que espionagem, ciberataques, desinformação, sabotagem de infraestruturas críticas, interferência eletrónica e drones tornaram a fronteira entre paz e conflito cada vez menos nítida.
A distância geográfica deixou de constituir, por si só, uma garantia de segurança. Portos, aeroportos, redes energéticas, comunicações e outras infraestruturas estratégicas exigem atenção permanente, capacidade de resposta e articulação entre as Forças Armadas, os serviços de informações e as autoridades de segurança.
Portugal começa, entretanto, a reforçar algumas capacidades. O Sistema de Informações da República Portuguesa (SIRP) recebeu 7,5 milhões de euros do PRR para desenvolver uma infraestrutura própria de inteligência artificial, destinada ao processamento e cruzamento de grandes volumes de informação em ambiente controlado. Por sua vez, o Exército investiu cerca de 587 mil euros numa rede móvel tática 4G/5G capaz de funcionar autonomamente quando as redes civis estiverem degradadas ou indisponíveis.
São investimentos de natureza diferente, mas apontam para a mesma realidade: num cenário de crise grave, conhecer primeiro, comunicar sempre e manter capacidade de decisão pode ser tão importante como dispor de meios militares convencionais.
A segurança do século XXI joga-se também nos servidores, nos cabos submarinos, nas redes de telecomunicações, nos sistemas de informação e na capacidade de detetar uma ameaça antes de ela se transformar numa emergência.
Mais do que saber se Portugal está fisicamente longe da frente de combate, o essencial é avaliar a nossa capacidade de resposta a um campo de batalha sem fronteiras visíveis.
L.M.Cabeço


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