A semana de 14 a 20 de setembro deixou um sinal difícil de ignorar: em matéria de segurança, aquilo que durante muito tempo podia ser apresentado como episódico começa a ganhar contornos de permanência. O narcotráfico marítimo é o exemplo mais evidente, mas está longe de ser o único. Criminalidade urbana, violência doméstica, incêndios, sinistralidade rodoviária, fragilidades institucionais e ameaças híbridas compõem um quadro em que os riscos se acumulam e se cruzam.
O tráfico de droga voltou a dominar a agenda. Lanchas rápidas, milhares de litros de combustível, embarcações abandonadas, estruturas de apoio em terra e redes internacionais revelam uma capacidade logística que ultrapassa largamente a imagem tradicional do traficante que tenta introduzir droga clandestinamente no país. Em três meses, foram encontradas pelo menos 13 embarcações associadas a esta atividade na costa portuguesa. A própria Polícia Judiciária reconheceu preocupação com a dimensão do fenómeno e com o papel de Portugal enquanto porta de entrada de cocaína proveniente da América do Sul.
A questão já não é, portanto, saber apenas quantos quilos foram apreendidos ou quantas pessoas foram detidas. É perceber até que ponto estas organizações conseguiram instalar em território português redes de abastecimento, armazenamento, comunicações e apoio humano. A apreensão pela Guarda Nacional Republicana (GNR) de milhares de litros de combustível no Algarve, a utilização do estuário do Tejo e a descoberta de menores ligados à logística destas redes mostram que existe uma estrutura operacional que merece uma resposta igualmente estruturada.
Não surpreende, por isso, que o ministro da Administração Interna tenha apontado o tráfico de droga como a principal ameaça à segurança interna. Mais relevante do que a declaração é aquilo que ela obriga a discutir: meios, inteligência criminal, cooperação internacional, vigilância marítima, investigação financeira e capacidade para atingir não apenas os executantes, mas também quem organiza, financia e beneficia do negócio.
Entretanto, as próprias forças que têm de responder a estas ameaças continuam a dar sinais de desgaste. Há reivindicações profissionais na GNR, pagamentos em atraso na Polícia de Segurança Pública (PSP), dificuldades de recrutamento e vagas que ficam por preencher. O Governo anunciou reforços policiais para Lisboa, mas reconheceu simultaneamente que nem todos os concursos conseguem captar os efetivos pretendidos. Instalações renovadas e novos equipamentos são necessários; sem pessoas suficientes, contudo, a capacidade operacional continuará condicionada.
Também a segurança quotidiana ofereceu motivos de preocupação. Tiroteios, homicídios, roubos violentos, agressões, violência doméstica e crimes sexuais surgiram repetidamente ao longo da semana. Nenhum destes episódios, isoladamente, permite concluir que Portugal se transformou num país inseguro. Mas também seria imprudente tratar a sua sucessão como simples ruído estatístico. A confiança dos cidadãos depende tanto dos números globais como daquilo que encontram nas ruas, nos transportes, nas escolas ou dentro das próprias casas.
Os incêndios voltaram igualmente a recordar que setembro deixou há muito de significar o fim tranquilo do verão. No distrito de Coimbra, centenas de operacionais combateram chamas que ameaçaram aldeias e provocaram feridos entre os bombeiros. O risco prolongado obriga a olhar para a proteção civil, a gestão do território e as alterações climáticas como componentes permanentes da segurança nacional, e não como matérias sazonais convocadas apenas quando começa a arder.
E depois há uma fronteira muito maior. Drones junto do espaço da NATO, incidentes no Báltico, guerra na Ucrânia, tensão no Estreito de Ormuz, ataques no Médio Oriente, ameaças a infraestruturas críticas e até um relatório incorreto produzido por inteligência artificial que quase desencadeou uma interceção militar norte-americana mostram como diminuiu a distância entre erro, provocação e conflito. A tecnologia aumenta capacidades, mas aumenta igualmente a velocidade com que um erro pode adquirir consequências estratégicas.
É talvez esta a principal conclusão da semana: a segurança já não pode ser administrada como uma coleção de ocorrências independentes. A lancha encontrada numa praia, a patrulha sem efetivos suficientes, o incêndio que atravessa concelhos, o ataque informático, a violência numa rua ou um drone que cruza uma fronteira pertencem a domínios diferentes, mas colocam a mesma pergunta ao Estado: existe capacidade para antecipar, coordenar e responder?
Contar apreensões, detenções, hectares ardidos ou ocorrências continuará a ser indispensável. Mas o verdadeiro teste começa depois dos números. Quando os mesmos sinais regressam semana após semana, deixam de ser exceções. Passam a exigir estratégia.
Manuel Gomes


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