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Press Center 11-02-2026

11-02-2026

Portugal acordou esta semana com o território fragmentado pela força das águas e o Governo submetido a uma das mais delicadas provas políticas do mandato. Coimbra tornou-se o epicentro simbólico dessa convergência: Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro deslocaram-se à cidade num momento em que o rebentamento de um dique na margem direita do Mondego obrigou ao corte da A1, à retirada de milhares de pessoas e à admissão pública de que podem ocorrer novas ruturas.

Três mil cidadãos aguardam ainda autorização para regressar a casa. Os diques de Montemor-o-Velho são vigiados para evitar galgamentos. Especialistas recordam que estas estruturas “não protegem infinitamente”. A memória de há 25 anos — quando falhas semelhantes deixaram centenas de famílias desalojadas, paira sobre um debate que deixou de ser técnico para se tornar estrutural: que país continuamos a construir em leitos de cheia?

A tempestade Kristin e as depressões subsequentes expuseram vulnerabilidades antigas. No Médio Tejo, milhares continuam sem eletricidade 15 dias depois. No Douro, a Ribeira do Porto esteve à beira da inundação. Em Alcácer do Sal, Seixal, Almada, Costa da Caparica, Camarate ou Porto Brandão, as evacuações repetem-se. Casas abandonadas à pressa, animais levados consigo, estradas cortadas, vias condicionadas. A Proteção Civil registou mais de 1.500 ocorrências numa madrugada. Em Aveiro, dezenas de estradas permanecem interditas. Em Albergaria-a-Velha, habitações isoladas. No Oeste, a chuva voltou a testar o limite da resistência local.

A recuperação terá custos expressivos. Só a reposição das antenas do SIRESP destruídas ascende a seis milhões de euros. Leiria já gastou 12 milhões desde o início da crise. O Governo criou uma Estrutura de Missão que promete “fazer urgente e bem”. Ao mesmo tempo, prepara uma reavaliação para incluir mais concelhos em situação de contingência e admite rever o PRR para acomodar os danos.

Este cenário coincide com turbulência política na Administração Interna — a pasta que mais demissões acumula nas últimas décadas. A saída da ministra, após meses de polémicas, levou Montenegro a assumir interinamente o ministério. A decisão procura sinalizar controlo num momento em que sindicatos alertam para “caos no socorro” e apenas uma em cada três chamadas para o 112 corresponde a emergências reais. A liderança do sistema de proteção civil, forças de segurança e coordenação interinstitucional tornou-se prioridade absoluta.

Em paralelo, a Justiça intensifica o escrutínio. Buscas na Câmara de Mesão Frio, na Ordem dos Médicos e em instalações militares. Uma operação internacional apreendeu 1,2 mil milhões de euros em dinheiro falso enviado da China por correio. Redes de tráfico foram desmanteladas no Norte e no Algarve. Casos de violência doméstica e crimes graves multiplicam-se nas páginas policiais, desenhando um retrato inquietante de tensão social em tempos de instabilidade.

No plano internacional, o ambiente permanece volátil. A guerra na Ucrânia entra numa fase política delicada, com Volodymyr Zelensky pressionado a convocar eleições e a submeter a referendo um eventual acordo de paz, condicionando qualquer calendário a garantias de segurança e cessar-fogo. Bruxelas aprovou empréstimos de 90 mil milhões de euros a Kiev e avalia a integração europeia em 2027. A NATO reforça o flanco norte com a iniciativa “Sentinela do Ártico”, enquanto a Noruega admite cenários de ameaça russa. Em Espanha, um descarrilamento fatal reacendeu debates sobre responsabilidade do Estado. No Canadá, um massacre numa escola secundária voltou a confrontar o mundo com a violência em espaços educativos.

A Comissão Europeia propõe uma aplicação para vítimas de ciberbullying denunciarem assédio e obterem apoio, sinal de que as novas frentes de vulnerabilidade são também digitais.

Entre a água que avança e as crises que se acumulam, impõe-se uma reflexão estratégica. A resiliência climática não pode continuar a ser um conceito periférico. O ordenamento do território, a manutenção de infraestruturas hidráulicas, a literacia de risco e a coordenação institucional exigem investimento consistente e liderança política experiente. O mesmo se aplica à segurança interna e à confiança nas instituições.

Portugal enfrenta um momento de teste. Não apenas à capacidade de resposta imediata, mas à maturidade estrutural do Estado. A sucessão de eventos desta semana, naturais, políticos e criminais, demonstra que a vulnerabilidade não é episódica. É sistémica.

O país pode escolher reagir, como tantas vezes, remendando danos e substituindo responsáveis. Ou pode aproveitar a crise como ponto de inflexão, consolidando políticas públicas que antecipem riscos em vez de os lamentar.

Entre cheias, demissões e buscas judiciais, a pergunta mantém-se: estaremos preparados para transformar a emergência em reforma?

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J.M.Ferreira

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